A Separação



(Jodaeiye Nader az Simin - Dir. Asghar Farhadi)


Vocês já devem ter ouvido aquelas piadas envolvendo "dramas iranianos", na qual se entende que o filme só é elogiado, ou se torna "cool" pelo seu local de origem. Em parte, a premissa da piada parte de uma verdade meio chata: já conheci muitos cinéfilos com a mania aborrecida de amaldiçoar e falar mal de qualquer coisa de Hollywood, o que as vezes apresenta resultados involuntariamente hilários, como os que afirmavam que Fernando Meirelles se vendeu ao "sistemão hollywoodiano" em O Jardineiro Fiel (uma produção... cof, cof... britânica). Por outro lado, é mais triste ainda ver que muitas pessoas ignoram obras fascinantes como A Procura de Elly ou Isto Não é um Filme por um preconceito completamente besta, algo que se aplica também ao cinema romeno (A Morte do Dr. Lazarescu, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) e coreano (O Caçador, Mother, O Hospedeiro), entre outros.

Então antes de qualquer outra coisa, é bom deixar claro: considero A Separação, um drama iraniano, fabuloso; e me divirto muito com os três primeiros Piratas do Caribe

Agora, continuando com a programação normal:

Dirigido por Asghar Farhadi (de A Procura de Elly), A Separação começa mostrando o divórcio de Nader e Simin. Ela deseja sair do Irã e levar a filha consigo, já Nader quer ficar para cuidar de seu pai, que tem Alzheimer, e não libera a partida da filha. Com a saída de Simin da casa, ele se vê obrigado a contratar alguém para cuidar do pai enquanto trabalha, Razieh, uma mãe de família, cujo marido está sufocado em dívidas. Um incidente entre Nader e Razieh é o fio no qual o diretor conduz uma trama simples, em meio a um complexo e fascinante estudo de personagens.

Filmado praticamente todo com câmera na mão, Asghar Farhadi já demonstra seu invejável talento na mise en scène na sequência em que Razieh é chamada para a entrevista de emprego: ao mostrar várias ações paralelas de forma quase documental (Simin arrumando as malas, a filha do casal brincando com a de Razieh enquanto ela conversa com outra pessoa e Nader passando em meio a todas as situações), ao mesmo tempo em que há clareza no que está acontecendo, quando um importante detalhe daquele momento vem a tona, ficamos exatamente com a dúvida que a trama exige. Afinal, não vemos o que um determinado personagem estava fazendo quando uma certa frase é dita, embora tenhamos certeza de que aquilo foi dito, e quais pessoas estavam lá naquele momento.

Além disso, A Separação faz um triste retrato da situação judicial do país (algo, novamente, ressaltado pelo tom documental que o cineasta aplica a obra), e quando percebemos que o juiz cuidando do caso, está também analisando outros dois naquele mesmo instante, com as outras pessoas na mesma sala, fica fácil entender porque o governo iraniano dedicou tanto tempo maldizendo o filme em declarações recentes.

Mas no fim das contas, são os personagens e suas ações o que realmente interessam. E como é triste perceber que, no final das contas, estávamos apenas vendo seres humanos absolutamente comuns em situações extraordinárias, praticamente obrigados a se combater graças as circunstâncias (algo que me lembrou, o quase tão bom quanto este, A Casa de Areia e Névoa). Encerrando com uma cena belíssima (que fecha uma rima visual simples e brilhante com a primeira sequência do filme), A Separação é altamente recomendado, especialmente para quem precisa perder alguns preconceitos com dramas iranianos...

NOTA: 10

0 comentários:

Real Time Web Analytics