Precisamos Falar Sobre o Kevin



(We Need To Talk About Kevin - Di. Lynne Ramsay)

Qualquer um que tenha lido Precisamos Falar Sobre o Kevin deve ter se perguntado "Mas porque diabos vão fazer um filme sobre esse livro?". E não pela velha desculpa de "o livro é melhor que o filme", mas pela própria estrutura deste: narrado em primeira pessoa através de cartas de uma mãe, cujo filho de 16 anos cometeu um massacre, o livro conta a história através da visão de sua personagem, praticamente sem grandes detalhes sobre o tal incidente, e muito mais descrições extremamente subjetivas sobre sua decadência familiar e profissional.

Dito isso... como é bom ser surpreendido.

Precisamos Falar Sobre o Kevin consegue escapar das armadilhas que poderiam surgir na adaptação graças a direção de Lynne Ramsay que ao invés de concentrar sua atenção na trama, cria um filme sobre emoções ambíguas e sombrias. A estrutura, aliás, lembra muito a de alguns trabalhos de Gus Van Sant, como Elefante e Paranoid Park (curiosamente, também filmes que envolviam tragédias adolescentes). Outro ponto bastante positivo está nas soluções visuais da diretora para trechos importantíssimos do livro que, dificilmente sairiam naturais no filme - e só leia aqui se já conhece a história - como o momento no livro em que Kevin revela a Eva que não a matou para não matar sua platéia, algo mostrado no filme quando o garoto presta reverência depois do massacre, e a imagem da mãe aparece em seguida.

Tilda Swinton surge absolutamente perfeita como Eva, a protagonista, retratando de forma instigante o sofrimento de sua personagem, e sem qualquer medo de revelar o seu lado mais sombrio (algo absolutamente fundamental para a compreensão da relação entre mãe e filho na história). Enquanto John C. Reilly praticamente repete seu personagem em As Horas, o pai distante que insiste em ver sua família como perfeita, quando claramente está longe disso.

Talvez o único problema do filme, seja o próprio Kevin. Não pelos atores que o interpretam, mas pela falta de ousadia na adaptação. Se no livro a falta de complexidade do personagem vinha pela subjetividade da história, aqui o mesmo não funciona, e em alguns momentos a sensação de que estamos vendo algo mais para A Colheita Maldita ou A Profecia do que um drama complexo atrapalha. Há apenas dois momentos em que o filme consegue fazer o personagem surgir mais complexo do que no livro: aquele depois em que o garoto faz um discurso sádico enquanto come uma fruta que não gosta, e o da última cena, cuja mudança no diálogo do roteiro melhora e muito a cena.

Contando ainda com um trabalho fabuloso de Jonny Greenwood na trilha sonora, Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme bem sucedido em transportar para as telas todo o peso e a complexidade do livro. E mesmo sendo uma pena que tenha faltado um pouco mais de ousadia na hora de criar mudanças na história, trata-se de um raro filme que funciona mais como um complemento a sua obra de origem do que uma mera adaptação.

NOTA: 9

4 comentários:

Cecília disse...

Terminei o livro estarrecida. Kevin adotara, como critério de escolha de suas vítimas, pessoas que tinham paixões – como Eva. O incrível é que, apesar de tirá-la o que mais amava e o que mais lhe importava na vida, ainda assim não conseguiu “destruí-la”. Ao final ele percebe que sua mãe o espera em casa depois de cumprida a pena, que sua mãe o ama. Olha, não sei nem como dizer o quanto gostei desse romance. Estou ansiosíssima para assistir ao filme. A sua resenha só me deixou ainda mais animada! Não consegui imaginar outra atriz tão andrógina, arrogante e brilhantemente talentosa para encarnar Eva senão Tilda.

Quéroul disse...

o livro tá na listinha há muito tempo e hoje criei coragem de comprar (promoção, hihi).

o filme me matou; chorei horrores, tô enxaquecosa até agora, três horas depois. achei muito bonito, adorei a trilha sonora, achei o elenco infantil/adolescente muito bom e assustador como talvez deva ser. mas não dá, me causa muita emoção essa coisa de gente, o que é, o que vira, as relações, os sentimentos.
sofri o tempo todo, cada momento por alguém...

Tilda tá força da natureza, lamento não ter nenhuma indicação da academia pra esse filme.

laptour disse...

depois que assisti ao filme...
quero matar Kevin

Película Criativa disse...

Um dos meus filmes preferidos de 2011, junto da atuação de Tilda Swinton (que não podia ter ficado fora da disputa pelo Oscar)


Cobertura Oscar 2012: http://peliculacriativa.blogspot.com/

Real Time Web Analytics