Margin Call - O Dia Antes do Fim



(Margin Call - Dir. J.C. Chandor)

Em 2008, com o anúncio sobre a crise financeira, veio a tona o escândalo do banco Lehman Brothers, que sabendo da desvalorização que suas ações teriam em breve, vendeu todas elas antes que a crise começasse a ser divulgada, tática semelhante a usada pela Enron antes de sua falência (e bem explicada no ótimo documentário de Alex Gibney). Margin Call é uma versão ficcional do fato (o nome do banco jamais é citado), mas com o grau de verossimilhança que o filme passa, é perfeitamente possível que, de alguma forma, os eventos podem ter acontecido de forma parecida.

O grande acerto do diretor e roteirista J.C. Chandor é fazer uma espécie de crônica do fato, sem a comum "demonização" dos sujeitos que trabalham em Wall Street. Assim, quando vemos a clara ironia do personagem de Kevin Spacey chorando pelo seu cachorro, enquanto metade dos funcionários perdem seus empregos na sala ao lado, o comentário não soa simplista, e conforme acompanhamos o personagem percebemos que o cachorro significava o único forte elo emocional do sujeito fora do trabalho. Além disso, Chandor cria uma lógica visual perfeita para a obra, e o travelling mostrando os escritórios vazios até chegar a um personagem que acorda de um pesadelo resume de forma perfeita as consequências do que estamos acompanhando.

Outro ponto forte do filme é a já mencionada verossimilhança, e destaco a reunião da equipe com o pomposo chefe interpretado brilhantemente por Jeremy Irons. A construção dos diálogos é simples e elegante, e a montagem sintetiza a ação dos personagens com brilhantismo: reparem como através dela,  compreendemos que o chefe está pedindo para que o novato explique a situação mais como forma de menosprezar as pessoas da mesa, do que qualquer outra coisa.

Margin Call é também beneficiado pelo seu elenco fabuloso: dos já mencionados Kevin Spacey e Jeremy Irons (este último, em um de seus melhores momentos), passando por Zachary Quinto, Simon Baker, Demi Moore (!) e Stanley Tucci, o resultado está mais do que acima da média. Destoando um pouco, está Penn Badgley, que só acerta o tom em suas cenas finais. Mas o grande nome aqui é Paul Bettany. Sim, o mesmo que tomou decisões incrivelmente bizarras em sua carreira volta a mostrar porque chamou tanto a atenção dos cinéfilos, e protagoniza vários dos melhores momentos do filme, cujos impulsos auto destrutivos surgem tão fortes quanto sua firmeza em defender os interesses da empresa (outra ironia fortíssima e bem trabalhada na história).

Porém, nem tudo são flores, e o filme falha imperdoavelmente em alguns momentos. Em especial no falso tom "profético" de algumas cenas: ainda sem saber direito todas as implicações do que estavam vendo, um personagem comenta olhando para as pessoas na rua "Todas essas pessoas... e nenhuma faz idéia do que está para acontecer"; e se o estudo dos personagens era o que realmente interessava ao diretor, é inexplicável que ele tenha deixado tantas pontas soltas na relação entre eles, citando um provável romance aqui, uma inimizade acolá, mas nada que ajude no desenvolvimento da narrativa (aliás, pelo contrário). Mas (Só leia o resto do parágrafo se já assistiu o filme) o mais imperdoável é que todo o impacto do seu clímax tem seu efeito anulado pela escolha estética do diretor: quando os empregados são obrigados a vender as tais ações, sabendo que perderão seus empregos, e que aqueles que comprarão (e com quem possuem relações comerciais e pessoais) estarão fazendo um péssimo negócio: um exemplo perfeito de como os funcionários "vestem a camisa" da empresa (como se diz no meio), e como são retribuídos por isso.

Mesmo assim, na balança, o saldo é muito mais positivo, e Margin Call - O Dia Antes do Fim pode não ser uma referência como Enron - Os Mais Espertos da Sala ou Trabalho Interno, mas não faz feio perto dos colegas.

NOTA: 8

0 comentários:

Real Time Web Analytics