Melancolia



(Melancholia - Dir. Lars Von Trier)

Na primeira metade de Melancolia, acompanhamos Justine que durante o próprio casamento começa a dar visíveis sinais de depressão, causando enorme desconforto em sua família, especialmente em sua irmã, Claire, a quem o filme dedica sua segunda metade. Cuidando de Justine, agora já em um estado ainda mais grave da depressão, ela começa a enxergar o vazio da própria vida e suas inseguranças ao perceber sua enorme dependência do marido, e até mesmo questionando a capacidade de proteger e amar seu filho, enquanto Justine começa a encontrar uma estranha paz interior em meio a turbulência de sua doença.

Ah sim... e há um planeta chamado Melancolia que, escondido atrás do sol, está vindo diretamente para a Terra, matando a todos com o impacto.

É claro que isto não é apenas um mero detalhe na história, mas este fascinante filme de Lars Von Trier está longe de ser um filme catástrofe, estando muito mais próximo da obra de Ingmar Bergman ou As Horas do que 2012 ou Presságio. Não há plantões urgentes na TV, pânico nas ruas, mercados saqueados sendo mostrados; von Trier mostra seus personagens observando o desastre como as figuras de um quadro do Romantismo. Com um visual que remete ao Dogma 95 que o consagrou, Von Trier utiliza o desastre para criar uma belíssima metáfora não apenas sobre a depressão, mas também sobre a existência humana perante o universo.

De certa forma, Melancolia se aproxima bastante de Anticristo, não apenas por serem abertamente obras baseadas no longo período de depressão do diretor, mas pela riqueza de idéias e simbolismos que o filme trabalha: de seu belíssimo prólogo, que mistura momentos finais dos personagens, com momentos citados mais adiantes como delírios (a caminhada com a lã cinza), passando até pelo cavalo de Justine se chamar Abraham (Abraão), ou o fabuloso momento em que Claire testemunha visualmente a paz interior da irmã a beira de um rio, Von Trier demonstra seu habitual domínio sobre a narrativa também no roteiro. Percebam, por exemplo, que o fato de Justine ser uma publicitária diz muito sobre sua condição. Seu chefe comenta, em certo momento, que há tempos ela não consegue criar uma boa idéia para uma campanha: a garota que outrora comunicava conceitos e idéias completas em apenas uma frase, agora mal consegue expressar o que está sentindo. Vale mencionar também a brilhante construção dos diálogos que acabam revelando muito sobre suas personagens, como a completa falta de contato com a realidade demonstrada por Claire ao revelar que não sabe se o empregado que trabalha a anos na sua casa tem uma família, e até em não entender porque ele estaria com sua família naquele momento.

E se esquecermos a parte filme-desastre, Melancolia ainda apresenta um retrato assustador e brilhante sobre a depressão que rivaliza com aqueles vistos em obras como Geração Prozac ou As Horas, e além da competência do diretor em criar estes momentos, a atuação de Kirsten Dunst é espetacular: voltando a mostrar o talento que exibiu em As Virgens Suicidas, seu trabalho beira a perfeição, desde sua insistência em aparentar felicidade em seu casamento ("Mas eu estava sorrindo!"), passando pela sua crescente dificuldade em se mover ou, no momento mais dramático, até em se alimentar, Dunst se mostra em seu melhor momento como atriz. 

Aliás, como é habitual nos filmes de Von Trier, todo o elenco se mostra inspirado. Se Charlotte Gainsbourg comove com seu crescente desespero, Kiefer Sutherland é outro que entrega uma atuação que reforça seu talento, enquanto John Hurt dá um show como o pai das duas irmãs, cuja misoginia fica clara em sua insistência de chamar todas as mulheres pelo mesmo nome. 

Durante o filme, porém, eu não estava completamente satisfeito com a obra, que em alguns momentos parecia se arrastar um pouco mais do que o necessário em alguns momentos, num ritmo irregular e estranho. Foi apenas no último ato que me conquistou, não só pelo seu impacto, mas pela maneira brilhante em que Von Trier trabalha o desfecho da história em si, como o resultado da brincadeira de adivinhar quantos feijões haviam dentro da garrafa, ou a "caverna mágica" de Justine. E para melhorar, Melancolia encerra com um dos momentos mais fortes e emocionantes da inteligente, controversa e brilhante carreira do diretor, ao criar uma cena que funciona tanto como uma metáfora sobre a religião como uma forma de lidar com o momento da morte, quanto num sentido bem mais romântico e otimista sobre as relações humanas do que seus outros filmes sugeriam.

E eu desafio qualquer um a tentar esquecer da sensação que experimentou no último enquadramento desta obra-prima.

NOTA: 10

7 comentários:

Rafael W. disse...

Preciso me aprofundar no cinema do Von Trier. Só assisti Anticristo, mas me senti completamente hipnotizado e fascinado pela sua forma de fazer cinema.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Tiago Lipka disse...

Rafael, recomendo que assista Dançando no Escuro que, na minha opinião, ainda é o melhor trabalho do Lars Von Trier.

Abraço o/

Kelvelyn disse...

Ainda pretendo assistir ao filme e provavelmente devo baixa-lo.

Gosto basante do trabalho do Trier Anticristo fica melhor a cada vez que se assisti mas os melhores dele continuam sendo Dogville e Ondas do Destino.

Quéroul disse...

eu ainda não sei dizer se (e o quanto) gostei do filme. achei lindo, como sempre acabo achando os filmes do Von Trier; gostei demais da Kirsten Dunst e da Charlotte, estão perfeitas; o elenco todo está uma coisa absurda de linda!

sofri demais, isso sim. quer coisa mais triste que um PLANETA feito de tristeza acabar com a terra? não teria uma ideia melhor... safado esse Von Trier.

Linderval Souza disse...

Deve mesmo ser muito bom para merecer um 10,sera meu próximo filme que irei ver valeu.

Fabio Cador disse...

Olá!

Quero fazer um convite à você que gosta de Cinema:

Conhecer a história por trás do maior filme de todos os tempos "E o vento levou..."

Estou fazendo uma peça teatral em que os personagens David O. Selznick, Ben Hetch e Victor Fleming mostram um pouco dessa loucura que, durante a produção, foi considerado "O maior elefante branco de Hollywood"

confirme sua presença e deixarei um par de ingressos pra vc na bilheteria

(depois diga o que achou, queremos muito saber!)

Abrs

FÁBIO CADÔR (infoteatro01@gmail.com)

Cleber Eldridge disse...

Eu não sou nada fã do cinema do Von Trier, ainda mais depois do péssimo 'Anticristo' - mais irei conferir esse e ver no que dá ;)

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