Trabalho Interno


Vencedor do Oscar de Melhor Documentário nesse ano, Trabalho Interno é um estudo sobre a crise econômica que atingiu o mundo no final de 2008. O filme não escapa, e nem pretende escapar de ser didático. Mas é louvável a maneira como as informações são trabalhadas, sempre de maneira coerente e clara. Em alguns momentos, o público pode confundir um nome ou outro, mas mesmo os elementos mais complexos, como o funcionamento de créditos, desregulamentação e derivativos são estabelecidos de forma compreensível.

Escrito e dirigido por Charles Ferguson (do excelente No End in Sight), o documentário narrado por Matt Damon começa apresentando o que a crise representou para a Islândia: o país que possui o PIB de 13 bilhões de dólares, acumulou uma dívida de mais de 100 bilhões, graças as interferências de economistas de Wall Street na divulgação de informações dos bancos do país. Em seguida, Trabalho Interno volta desde a Grande Depressão de 1928 para mostrar como a economia americana se desenvolveu, até os anos de Ronald Reagan, quando banqueiros e Wall Street começa a mandar nos Estados Unidos, graças a importantes cargos políticos que, infelizmente mesmo depois da crise, são mantidos.

Apresentando entrevistas com nomes importantes envolvidos na história, Ferguson evita chegar ao tom cínico de Michael Moore, constantemente fazendo que seus entrevistados se enforquem sozinhos em seus argumentos. Como entrevistador, esse é um dos grandes. Mas talvez o mais surpreendente no documentário seja a maneira como o comportamento dos envolvidos na crise é apresentado: constantemente cercados de prostitutas e drogas, e incentivados a ganhar bônus milionários por investimentos de alto risco (que foram grande parte dos maiores problemas da crise financeira), há ainda a velha questão apresentada por Freud. Eu tenho mais aviões que aquele, aquele tem mais navios que o outro. Não é a toa que falência deriva de falo.
Mais do que qualquer coisa, o objetivo do documentário é questionar porque o mercado financeiro parece imune a investigações aprofundadas do governo. O FBI, FMI e muitos outros já alertavam desde o início da década passada sobre atos de corrupção e outros agravantes, como mudanças em leis antigas, que levaram a crise financeira. Além disso, é chocante perceber o impacto sobre a classe trabalhadora: das enormes fábricas com pouco funcionários na China, até a vila de barracas nos Estados Unidos, onde moram várias famílias que perderam suas casas. 

Há ainda uma consequência pouco lembrada: o dos estudantes norte-americanos. Os principais professores de grandes universidades, como Harvard e Columbia são consultores das maiores empresas so país, ganhando mais do que o dobro pelo serviço as empresas do que pelas aulas. Como garantir que não exista conflito de interesses? Se não fosse o bastante, o setor educacional privado nos Estados Unidos parece ter sido fabricado para criar jovens com dívidas milionárias, graças a esquemas vergonhosos.

Documentário sério e inteligente, Trabalho Interno merece ser conferido em parceria com outros filmes importantes sobre o tema, como Enron - Os Mais Espertos da Sala e Capitalismo - Uma História de Amor, apesar de ser bastante superior a estes. 

Fico triste que Lixo Extraordinário não tenha levado o Oscar. Mas foi por uma boa causa e, verdade seja dita, por um filme que merecia mais a estatueta.

NOTA: 10

1 comentários:

annastesia disse...

Mais do que x-cellent! Gostei muito!

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