Solaris (1972)


Baseado no romance de Stanislaw Lem, conta a história do psicólogo Kris Kelvin, que é enviado para a estação espacial do planeta Solaris, que na verdade, é um grande oceano. Sua ida prevê o estudo das consequências psicológicas das pessoas que trabalharam no local: todas voltaram perturbadas, alegando terem visto e experimentado situações fora do comum. Burton, um amigo do pai de Kelvin, viu uma floresta surgir em meio ao oceano, e logo depois um feto gigantesco, e ao voltar a Terra, descobriu que era filho de um amigo seu, que jamais tinha visto antes. 

Na estação, há apenas dois sobreviventes: Dr. Snaut e Sartorius. Guibarian, amigo de Kelvin se matou poucos dias antes de sua chegada, deixando a ele um depoimento em vídeo, avisando-o sobre os "visitantes". Aparentemente, o planeta Solaris materializa pensamentos de quem vai até lá. Snaut é visitado por um filho, Sartorius dedica seu tempo a dissecar seus visitantes, e Kelvin é visitado por Hari: sua ex-mulher que se suicidou a mais de dez anos. 

O encontro do homem e sua consciência. Assim pode ser resumida a experiência fabulosa construída em Solaris por Andrei Tarkovsky. O filme, sem dúvida, é um dos melhores da história do cinema, faltam adjetivos para elogiá-lo. Lançado pouco tempo depois de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, tem muitas semelhanças temáticas com a obra de Kubrick, mas as suas abordagens os separam completamente.

Logo no início, Tarkovsky mostra a vegetação sendo conduzida pelo movimento das águas. Em seguida, mostra a vegetação coberta pelo orvalho, e uma leve neblina, até que chega a Kris Kelvin, observando. Nos primeiros segundos do filme, o diretor já construiu seu tema: o homem e sua ligação a natureza. Kris está obviamente ligado a tudo a seus arredores, seu olhar, sua expressão corporal. Ele está ali, e vivendo em harmonia com a natureza. Mas a cor gritante de suas roupas e um aparelho eletrônico em sua mão criam um estranhamento nessa relação.

Mas isso é apenas uma amostra minúscula da genialidade demonstrada por Tarkovsky: reparem no momento em que Kelvin encontra Guibarian no necrotério. A porta é aberta, e um movimento específico de câmera mostra Guibarian. Logo depois, quando Kelvin vai dormir o mesmo movimento de câmera mostra Kelvin, o que indica que a experiência que resultou no suicídio de Guibarian é a mesma que atormentará Kelvin. E não é só isso: reparem que após o movimento de câmera, em Guibarian vemos a janea na porta do necrotério, que é exatamente igual as janelas da estação que mostram o planeta Solaris (a interpretação religiosa do encontro do  homem e sua consciência no pós-morte), e em Kelvin surge a primeira aparição de Hari, em contra-luz com a janela.

E não é apenas isso: reparem em como diversos elementos do planeta Terra encontram substitutos em Solaris (algo que faz parte do tema do filme, especialmente no belo diálogo de Snaut dizendo que "não procuramos outros mundos, e sim um espelho"): o cavalo na fazenda do pai de Kelvin é mostrado em diversas figuras espalhadas no quarto de Guibarian, a vegetação tem seu som substituído por um sulfite rasgado preso num ventilador. E o que dizer da belíssima sequência na biblioteca, que pintada em tons fortes, é o único lugar na estação que remete a Terra, com artefatos de madeira, e diversas obras de arte marcando vários períodos de nossa história, é concluída com o momento em que Kelvin e Hari flutuam pelo cômodo.

E se isso não fosse mais do que o suficiente, Solaris ainda apresenta uma das histórias de amor mais complexas, belas e trágicas da história do cinema. Hari surge em Solaris como uma "visitante". Logo, a resposta inicial de Kelvin é racional: ele a coloca numa nave e a solta no espaço, mas logo é surpreendido por outra Hari, a qual ele decide acaba se apegando e mais: esta outra Hari reconhece o fato de não ser a verdadeira Hari, e sim uma cópia, mas acaba despertando sentimentos humanos com isso (ela seria o Hal 9000 do filme). Porém, lembrem-se que ela foi construída como a imagem que Kelvin tinha de Hari (reparem no momento em que Hari tem uma lembrança da mãe de Kelvin,que ela nunca conheceu: ou seja, uma lembrança do próprio Kelvin): portanto, quando deixada por algum tempo sozinha, ela sempre tenta o suicídio, afinal, foi o que Kris guardou dela. 

Não é a toa que o tema seja justamente o encontro do homem e sua consciência: para continuar sobrevivendo, Kelvin (e qualquer outro em sua situação) procuram a resposta racional para o fato: ela teria cometido suicídio de qualquer maneira. O que Solaris indica é a óbvia culpa de Kelvin: sim, ele foi culpado pelo suicídio de Hari, e não há escapatória: ele é obrigado a reviver e aceitar isso. E assim, o misterioso desfecho do filme é mais do que genial: é um dos grandes finais da história do cinema.

A direção de arte talvez seja uma das mais inspiradoras já feitas: dos artefatos quase destruídos que tomam conta dos corredores da estação espacial, passando pela belíssima e já comentada biblioteca, há ainda o claro destaque para os quartos de cada personagem, todos guardando pistas importantes sobre eles, especialmente Sartorius: sempre inquieto e provocador, há também uma curiosa preocupação nele para com os outros. Reparem em como ele ouve um depoimento de Kelvin a distância. E em seu quarto, reparem que ele guarda fotografias do filho de Snaut, por exemplo.

Muitos reclamam do início lento da obra, especialmente a longa sequência que mostra Burton voltando de carro para casa depois de discutir com Kelvin, e realmente sua primeira meia hora é lentíssima. Mas é também importantíssima para a compreensão da obra como um todo. A atenção a mais que Tarkovsky dedica a Burton, por exemplo, é fundamental.

Vale a pena fazer um esforço: aqui, você será mais do que recompensado.

NOTA: 10

PS: Há um remake de 2002 dirigido por Steven Soderbergh de Solaris, que eu acho  bacana, interessante, mas está longe da qualidade deste aqui.

1 comentários:

Hernâni disse...

Depois de ler a tua critica fiquei com aquele bichinho para ver o filme (que já tenho aqui em casa para ver à uns tempos mas entretanto fui vendo outros).

Por acaso já viste o Stlaker do mesmo realizador? Tambem tenho esse e aoa espreitar parece-me que tem uma realização ainda mais alternativa do que o Solaris! Será?

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