Lope


Durante sua vida no final do séc. XVI, o poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega produziu cerca de 8.000 obras literárias, façanha ainda inédita. Teve extrema importância na renovação do teatro, além de ter participado da guerra de seu país contra Portugal. Com uma história de vida dessas, é inaceitável que Lope, primeira produção internacional de Andrucha Waddington, se concentre apenas num triângulo amoroso envolvendo o escritor com a mesma profundidade de uma novela global.

O filme começa bem, mostrando Lope voltando da batalha, pouco antes da morte de sua mãe (uma pequena e excelente ponta de Sonia Braga). Recebendo algum dinheiro ao escrever poesias para marmanjos lerem para suas mulheres, ele ganha uma oportunidade para trabalhar junto do grande dramaturgo da cidade, inicialmente como copista. Graças a influência da filha do dramaturgo, Elena, com quem se envolve, ele começa a chamar atenção por suas obras inovadoras. Depois de descobrir que Elena é casada, ele se revolta contra seu patrão, e troca Elena por Isabel.

A sinopse que escrevi acima já mostra os problemas da história: Lope é um mulherengo irresponsável. Sua revolta com o sujeito que emprestou dinheiro para o funeral de sua mãe é injustificável, já que apesar de ganhar dinheiro, ele sequer considera pagar a dívida. Além disso, suas atitudes de rebeldia quanto as figuras de poder da cidade surgem apenas de ressentimentos amorosos que o sujeito passou. Não sei nada sobre a história verdadeira de Lope, mas se a idéia era fazer uma homenagem, certamente saiu pela culatra.

São nos poucos momentos em que o filme se concentra nas habilidades artísticas de Lope que faem valer a pena: do improviso de poemas numa festa, até a apresentação da primeira peça de teatro escrita por ele, ali sim o filme encanta e diverte. E a direção de Waddington torna tudo mais interessante. Beneficiado pela fotografia belíssima, seu trabalho remete ao de Christopher Nolan em O Grande Truque: é um filme de época sem as firulas de um típico filme de época - apresenta um constante uso de câmera na mão, por exemplo.

É pena que depois de um bom início, um segundo ato irregular, o filme caia num final irritante, que inclui até uma cena de julgamento daquelas que já vimos 1.000 vezes antes para concluir a história. A bem da verdade, talvez eu não tivesse ficado tão decepcionado com Lope se, no final, uma legenda contasse tudo que o filme não contou, como o número de obras que ele produziu em vida.

Uma sacanagem. A legenda é melhor e revela mais que o filme inteiro.

NOTA: 6

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