Incêndios


A cena inicial é arrasadora: ao som de You and Whose Army? do Radiohead, vemos um grupo de crianças sendo preparadas para um grupo de guerrilha, e uma delas com determinação e uma respiração pesada encara a câmera. Em seguida, o filme apresenta rapidamente sua premissa. Jeanne e Simon são dois irmãos gêmeos que ouvem o testamento de sua mãe pouco depois de sua morte. Desejando ser enterrada de maneira curiosa, ela pede que os dois entreguem duas cartas: uma para o pai deles, e outra para o irmão, com o detalhe de que eles nunca sequer souberam que tinham um irmão, ou que o pai ainda estivesse vivo. Para isso, devem ir até o Oriente Médio. Enquanto Simon se recusa, Jeanne parte em busca deles, e acaba descobrindo a trágica história de sua mãe.

De início, Incêndios pode parecer um filme esquemático, afinal, desde a cena da leitura do testamento, o público já pode prever muito sobreo desenrolar da história: é óbvio, por exemplo, que a leitura das cartas será o clímax, ou que a participação do grande Rémy Girard se tornaria muito mais importante do que parecia a princípio. Porém, é interessante como o roteiro e a direção de Denis Villeneuve foge de quase todas as armadilhas que isto poderia causar graças a história, que é realmente forte e surpreendente. E mesmo quando uma cena ou outra acaba derrapando, como o momento, bastante artificial, quando vários personagens dão a Simon uma tarefa dizendo ser "sua vez", a verdade é que são problemas completamente esquecíveis, diante do poder de fogo da obra como um todo.

Ambientado em meio a batalhas entre muçulmanos e católicos, um dos aspectos mais fortes da obra é sua visão crítica sobre a influência da religião na violência do local: se no início, acompanhamos o desespero da família da "Mulher que Canta" pelo avanço dos muçulmanos que começaram a bombardear a cidade e matar os católicos, logo ela se depara numa emboscada destes últimos, com consequências terríveis (e o plano de detalhe na metralhadora de um dos sujeitos, com uma pintura da Virgem Maria próxima ao gatilho fala muito por si só). Além disso, a sequência de Jeanne sendo recepcionada por várias mulheres no vilarejo onde sua mãe cresceu é sublime dentro dessa lógica da trama.

Narrado de forma não-linear, acompanhando a jornada da mãe e dos filhos (e um outro personagem que não me atrevo a revelar), Incêncios tem muito em comum com Adoração: ambos acompanham a história de filhos redescobrindo seus pais, sua herança cultural, e acompanha o fim de uma linhagem construída pelo ódio e pela violência. Mesmo não sendo, tematicamente, tão ambicioso quanto a obra-prima de Atom Egoyan, Incêndios apresenta uma força dramática rara, e o cuidado admirável do cineasta em jamais fugir do verossímil lembra o excelente trabalho de Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel, com quem também guarda algumas semelhanças na narrativa.

Em seu desfecho, Incêndios não apresenta uma resposta surpreendente apenas pela "revelação" que surge ao final, mas principalmente nas consequências desta revelação, que fazem do último enquadramento deste filme, um dos momentos mais belos, complexos e tristes dos últimos anos.

NOTA: 10

2 comentários:

Rafael W. disse...

Tenho muita curiosidade em assistir.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Película Criativa disse...

Incendies é nota 10!

Além do roteiro fugir de qualquer clichê já apresentado no cinema, a direção de Denis Villeneuve foi muito precisa e sensível, intercalando o trajeto da mãe e da filha.

Incendies sem dúvidas foi um dos melhores filmes dessa última temporada do cinema e na minha opinião, merecia o Oscar de melhor filme estrangeiro.

http://peliculacriativa.blogspot.com/2011/03/review-incendies-incendios.html

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