Ghost World - Aprendendo a Viver


Adolescentes são um saco. Especialmente aqueles que concordam com isso e pensam que se comportam como adultos por isso. Eu sei porque fui desses, e tive amigos assim. Ghost World apresenta duas personagens exatamente assim logo no fim do colegial. Decididas a não fazerem faculdade imediatamente, mudando-se para um apartamento e trabalhando antes, Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) tem sua amizade testada pelo confronto com a realidade da vida adulta.

Se Rebecca imediatamente começa a trabalhar, procurando apartamentos e amadurecendo a olhos vistos (algo trabalhado de maneira sublime por Johansson), Enid continua com seu comportamente anti-social, fascinada por qualquer coisa que soe estranha as "pessoas normais", como punk dos anos 70, musicais indianos ou coletâneas de blues em vinil. E não é a toa que se aproxima (de forma desprezível) de Seymour (Steve Buscemi), um colecionador compulsivo de vinis e quadros antigos.

Baseado nas HQ's de Daniel Clowes e dirigido por Terry Zwigoff (parceria que rendeu também o documentário Crumb e Uma Escola de Arte Muito Louca), Ghost World tem como maior mérito a maneira como mostra o mundo de acordo com a visão de Enid. O visual da obra foge do realismo, é trabalhado com exagero de cores dos cenários aos figurinos. E essa subjetividade também colabora dramaticamente para com a história: reparem na cena em que Rebecca mostra o que o apartamento tem de "tão legal" - uma tábua de passar roupa que sai da porta do armário. Por um lado, a alegria de Rebecca é comovente, e mostra uma mudança importante na atitude da moça. Mas a visão da cena, vem principalmente em como Enid vê a cena: é patética.

E se isso é interessante por um lado, também condena o filme: Enid é a protagonista mais aborrecida e irritante da história do cinema. Claro, estou exagerando, mas essa é a impressão durante a obra - citando a lógica da obra, é tão chata que chega a parecer cool. Mas a impressão é a de que algo deu errado. O filme ganha vida quando Steve Buscemi aparece, com sua presença sempre interessante em cena, e o desfecho do personagem e sua relação com Enid é perfeito. E por mais incrível que pareça, isso é mais do que o bastante. As constantes mudanças dos personagens, e o gradual (e demorado) amadurecimento de Enid são bem trabalhados. E as atuações de Thora Birch e Scarlett Johansson são mais do que perfeitas no contexto da obra (aliás, o que Birch fez de sua promissora carreira? Tsc...).

Infelizmente, depois de uma obra surpreendentemente bem construída ao redor de uma protagonista insuportável sem tornar a própria narrativa igualmente insuportável, incluindo idéias bastante surpreendentes dentro do seu conceito (o senhor que sempre espera o ônibus que não passa mais no local, por exemplo), Ghost Town decepciona ao não saber como encerrar sua história: depois de sugerir um desfecho com Enid observando uma cena, o filme repete o mesmo momento com Enid vivendo aquele momento, perdendo um momento de belíssimo sutileza com uma obviedade triste. 

Mas, na minha opinião, esse defeito pode foi perdoado quando Terry Zwigoff fez o fantástico Papai Noel às Avessas.

NOTA: 7,5

1 comentários:

Quéroul disse...

eu acho esse filme um lixo superestimado. dá até dó ver Buscemi nessa tranqueira. humpf, detesto!

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