Alexandria


"Se alguém não questiona o que acredita, então não deveria poder acreditar"...

Chegando com um atraso de quase dois anos e direto em DVD aqui no Brasil, Alexandria é o filme mais recente do grande diretor espanhol Alejandro Amenábar. Dono de uma filmografia fabulosa que inclui Preso na Escuridão, Mar Adentro e o subestimado Os Outros, aqui ele realiza um épico subversivo, que mostra a tomada do Cristianismo na famosa cidade egípcia. E o subversão que ele usa lembra a que Paul Greengrass realizou em Zona Verde, ao mostrar o exército americano como o grande vilão da história. 

Aqui, são os cristãos os vilões bárbaros, que não enxergam qualquer problema em massacrar mulheres, crianças e idosos que pertençam a outra religião (algo que também me remete ao recente e excelente Incêndios). E a acusação direta e historicamente precisa que o filme apresenta é tão forte que acaba compensando os eventuais problemas da narrativa.

No centro da história está a filósofa e astrônoma Hypatia (Rachel Weisz), cujas pesquisas conseguiram prêver quase com completa exatidão o movimento dos planetas ao redor do sol (e isso quase 1.000 anos antes da confirmação oficial). Enquanto dá aulas para jovens de várias religiões na biblioteca de Alexandria, um protesto cristão dá origem a uma verdadeira batalha nas ruas da cidade, quando os pagãos finalmente percebem o tamanho do inimigo. Depois que os cristãos recebem autorização do prefeito para invadir a biblioteca, queimando e destruindo tudo que enxergam pela frente, Davus, o escravo de Hypatia a abandona e se une aos cristãos. 

Algum tempo depois, os cristãos se estabelecem na cidade, inauguram uma censura violenta contra outras religiões (inclusive contra os judeus, que os ajudaram a chegar ao poder) e o medo dos habitantes e até de figuras políticas faz com que todos se convertam ao cristianismo, inclusive o novo prefeito da cidade, Orestes, também ex-aluno de Hypatia, que agora é sua fiel conselheira. Porém, o novo bispo que conduz o povo resolve também exterminar os judeus e tomar a cidade para si, enquanto usa o fato do prefeito ser aconselhado por uma mulher (o que, segundo a Bíblia, é um problemão) e, pior, de outra religião, para enfraquecer as estruturas do governo.

Contando com um visual extraordinário, Alejandro Amenábar não está nem um pouco preocupado em ser sutil, e mostra a história de Alexandria numa verdadeira fábula de horror sobre a religião, e suas constantes e venenosas intervenções no progresso da humanidade. Não é a toa que utiliza a história de Hypatia, uma filósofa completamente a frente de seu tempo, para isso: as discussões soam assustadoramente atuais, e há diversas citações visuais a conflitos recentes com o mesmo pano de fundo: é impossível não lembrar da guerra contra o Iraque, quando os militantes cristãos levam suas vítimas com capuzes, por exemplo. E ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o diretor reconhece também as injustiças dos pagãos contra as outras religiões ainda no início, especialmente no momento em que um deles decide chicotear um escravo cristão, apenas para que ele não tente lhe ensinar sobre humildade.

Além disso, há tantas cenas fabulosas que chega a ser difícil destacar algumas, mas arrisco que o momento em que Davus é libertado por Hypatia, a invasão de biblioteca, o massacre por apedrejamentos numa igreja, e o discurso anti-semita e desprezível do bispo, juntos com o trágico final vão permanecer com o público até muito tempo depois de terem assistido.

Só é uma pena que o desenvolvimento de alguns personagens seja prejudicado, talvez pelo quase ativismo de Amenábar, especialmente o pai de Hypatia, interpretado por Michael Lonsdale, afinal é justamente o respeito de todos ao redor para com ele que permitiu a sua filha que se mantivesse sempre livre em suas pesquisas, independente de seu sexo. Aliás, a própria Hypatia tem um arco dramático um pouco preguiçoso,. É uma personagem fascinante, sem dúvida, e Rachel Weisz está ótima e linda como sempre, mas sua solidão, e a completa ausência de paixão por algo que não seja seus conhecimentos poderiam ser mais explorados. Por outro lado, Davus e Orestes se mostram os personagens mais fascinantes, e são os dois que tornam o desfecho tão complexo e interessante, algo bem desenvolvido pelo roteiro e pelos ótimos trabalhos de Max Minghella (Davus) e Oscar Isaac (Orestes).

Apresentando um espetáculo cinematográfico raro em extensão, Alexandria merece muito mais ser visto e lembrado pela ousadia e coragem que demonstra. No meio das batalhas sangrentas, da direção de arte e figurino caprichados, da trilha sonora grandiosa e outras características sempre apresentadas em épicos, há aqui idéias e opiniões fortes, característica que o diferencia de qualquer porcaria do gênero como Tróia ou Gladiador.

NOTA: 10

2 comentários:

Película Criativa disse...

Esse filme me surpreendeu. Além de trazer uma estética visual belissíma, a narrativa do filme encanta aqueles que gostam de histórias épicas.

Rachel Weisz foi a escolha perfeita para o papel, uma mulher além de seu tempo, rodeada por conhecimento e desgraça.

Apesar do espectador saber desde o início o rumo que o filme irá tomar, foi mérito da direção em manter o interesse em cada cena do filme.

Eric Musashi disse...

Assisti ontem e é realmente um filmaço, um dos melhores épicos que já assisti, mas classificar Troia e Gladiador de porcaria é exagero. Troia tem alguns excessos de interpretação e um final mal-feito, mas as ideias apresentadas, a visita do Príamo que faz o Aquiles amadurecer (ambos originais da Ilíada), bem como o que Aquiles diz a Briseida ("Os deuses nos invejam porque somos mortais, porque cada momento pode ser o nosso último; tudo é mais bonito porque a morte nos espera"; isso ideia original do roteiro do filme), tornam um filme muito mais que reconstrução de uma época com uma dose de ação.
Já Gladiador, há interpretações soberbas e o filme ainda ousa como história alternativa no desfecho. São ambos filmes que trazem algo a se pensar.
Contudo, concordo que Ágora é superior aos dois.

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