O Terceiro Homem


Quase um resumo do que é o Cinema Noir. É uma das obras mais importantes e geniais do gênero. Dirigido pelo excelente Carol Reed (que também fez Agonia e Êxtase e O Grande Motim), O Terceiro Homem foi roteirizado por Graham Greene, um escritor genial cujas obras já foram muito adaptadas para o cinema, quase sempre com resultados bastante positivos, como aqui ou em O Americano Tranquilo e Fim de Caso.

Holly Martins é um escritor americano conhecido, mas não muito admirado que se encontra em péssima situação financeira. Eke é convidado pelo amigo de infância Harry Lime a se mudar para Viena, onde ele lhe conseguirá um emprego e moradia. Mas ao chegar na cidade, Holly descobre que Harry acaba de morrer atropelado, e pior: ele era procurado pela polícia por inúmeros negócios ilegais, incluindo assassinato. Decidido a provar a inocência do amigo, Holly contraria os conselhos das autoridades e começa a investigar sozinho as circunstâncias misteriosas da morte de Harry.

A história é simples e intrigante, mas tem duas características que realmente tornam O Terceiro Homem uma obra-prima: a primeira é o humor de Graham Greene, e a constante característica do autor de jamais trabalhar com personagens unidimensionais. Holly, por exemplo, é um protagonista falho, arrogante demais (observem a divertida mania de errar propositalmente o nome ds outros, e sua reação quando confundem o seu nome), ocasionalmente não muito inteligente, mas é motivado por boas intenções. E se o major Calloway surje como um provável vilão no início, aos poucos percebemos que suas motivações são mais do que justificadas, e sua preocupação em saber tudo que envolve seu trabalho é marcante (percebam a troca de diálogos cuidadosa com os policiais russos sobre um passaporte).

Construindo um clima pesado de paranóia, sempre destacando os personagens sendo observados, e utilizando com inteligência o fato da cidade de Viena ser dominada por autoridades com diferentes linguagens, Carol Reed trabalha com movimentos de câmera ousados e eficientes reavaliados mesmo hoje, especialmente o momento em que depois de acompanhar uma conversa num apartamento, a câmera "atravessa" as plantas na janela para mostrar uma misteriosa figura caminhando ali perto. Trabalhando com o preto e branco contrastado marcante do Noir, as cenas de perseguição no ato final são extraordinárias, mas talvez seja o diálogo na roda gigante, tanto pelo visual quanto pelo diálogo ("Não são pessoas, são pontinhos no chão. Você se incomodaria em esmagar um pontinho desses por 20 mil?") que seja o ponto máximo aqui. E o que dizer da fabulosa cena final?

O filme está repleto de atuações sensacionais, da arrogância divertida de Joseph Cotten-Valli, passando pela seriedade e carisma de Trevor Howard, mas O Terceiro Homem é Orson Welles: o personagem já mostra tudo que é sem dizer uma só palavra, logo na primeira vez em que vemos seu rosto numa cena construída de forma sublime. Uma atuação magistral de um ator e cineasta único. 

Mesmo com sua pequena parcela de problemas (a perseguição dos capangas do romeno contra Holly depois de uma palestra parece ter sido incluída para concluir uma cena que não sabiam como concluir), O Terceiro Homem é um desses filmes que não merecem ser vistos: deve, e obrigatoriamente, ser visto.

Clássico e fundamental é pouco.

NOTA: 10

1 comentários:

Anônimo disse...

com quem Martins se encontra no enterro de Lime? Não consigo me lembrar o nome. obg

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