Não me Abandone Jamais


Depois de realizar o interessante (mas falho) Retratos de uma Obsessão, Mark Romanek ficou um bom tempo sem lançar nada nos cinemas. Esperou, e acertou em quebrar o jejum com essa adaptação do romance de Kazuo Ishiguro realizada por Alex Garland, mais conhecido pelas suas parcerias com Danny Boyle, especialmente o fabuloso Extermínio.

Não me Abandone Jamais conta a história de três jovens numa realidade alternativa, onde nos anos 50 a expectativa de vida do homem chega aos 100 anos, e grande parte das doenças é dizimada. A infância de Kathy, Ruth e Tommy aconteceu em Hailsham, uma escola afastada da civilização e repleta de histórias mal contadas. O estranhamento com o cotidiano é imediato: da estranha maneira com as pessoas de fora tratam as crianças de lá, passando pelas normas rígidas e a frieza dos professores, e a felicidade dos alunos em saber que chegarão caixas abarrotadas, tudo se torna triste e complexo quando finalmente compreendemos o que está realmente acontecendo ali.Anos mais tarde, Ruth e Tommy estão namorando, a contragosto de Kathy, que sempre quis ficar com ele, e fazem seus primeiros contatos com o mundo exterior, e é bom parar de falar da história por aqui mesmo.

Não me Abandone Jamais, em seus melhores momentos, parece uma parceria improvável entre George Orwell e Kafka, e toda a primeira parte do filme demonstra bem isso. É uma pena que conforme a história avance, o triângulo amoroso entre os protagonistas se torne mais importante do que todo o resto: não que isso enfraqueça todo o conjunto, mas tudo se torna um pouco previsível. Os poucos momentos em que a história foge um pouco disso são extraordinários, em especial o belíssimo momento em que os três se deparam com o barco preso na areia, uma metáfora visual perfeita para as suas histórias.

Voltando a mostrar seu talento absurdo, e uma maturidade mais do que surpreendente para sua idade, Carey Mulligan faz um trabalho excepcional, repleto de sentimento: há uma cena fascinante em particular, em que sabemos exatamente qual a revelação que uma personagem irá dizer apenas pela expressão em seu rosto (só por esta cena, Carey merecia uma indicação ao Oscar, mas enfim...). E se Keira Knightley surpreende ao mostrar Ruth como uma pessoa que usa a arrogância como forma de se proteger de seu trágico destino, Andrew Garfield impressiona pela maneira contida com que trabalha, surpreendendo com a explosão que surje depois de um momento particularmente trágico. 

Mark Romanek trabalha de maneira fria, racional e curiosamente isso torna o filme ainda mais emocionante e envolvente, especialmente no primeiro ato, como na cena em que Sally Hawkins, sublime, conta uma informação importantíssima para seus alunos. Essa estretégia só acaba falhando em seus minutos finais, quando o diretor inclui uma narração desnecessária para resumir as idéias da obra, enfraquecendo assim a beleza de sua própria mise-en-scène. De qualquer forma, com Não me Abandone Jamais, Romanek finalmente realiza algo a altura de seu talento, e mostra aos cinéfilos que ainda não conhecem sua obra,que aqui está um diretor para ser observado e levado a sério.

NOTA: 9

2 comentários:

Natalia Xavier disse...

Um filme digno pra se matar com faquinha de rocanbole após assistir...

Verdade, que o triangulo amoroso sobressaiu ao resto da historia, acredito que isso foi proposital e nao serviu somente como apelo para parecer mais interessante, e sim pra levantar questoes sobre a humanidade.

É dificil perceber (sem saber nada a respeito do filme) que existe um pé na ficção cientifica a principio.

Gostei mto da atuação da Mulligan, e Andrew Garfield me surpreendeu, sensacional. Não tinha botado tanta fé no ator, ainda mais depois que vi A Rede Social.

Abs!

Anônimo disse...

a keira knightley é a pior atriz que o cinema atual tenta nos enfiar goela abaixo.

é um desses tristes casos em que, por ter um "visual correto", physique du role, cabendo em papéis de época, filmes contemporâneos, filmes "cult", acaba escalada para um monte de filme bom. enquanto um monte de outras atrizes, com muito mais potencial, são taxadas de limitadas, fracas, ou até ruins, por terem poucas ou sempre as emsmas oportunidades, tb devido ao visual.

vcs acham que uma eva mendes, latina estilo "bosuda", uma bombshell a lá sharon stone seriam cotadas para fazer um filme como este, ou método perigoso, ou o ainda não lançado anna karenina?

jamais. e são todas melhores que keira. é triste, bem triste. essa menina é muito, muito ruim. sempre interpreta ela mesma. sempre com o famoso biquinho. em alguns filmes, ela nao chega a comprometer o resultado final, como no ótimo desejo e reparação, ou até mesmo neste aqui, onde temos o resto do elenco incrível, mas nunca consigo entender, os críticos, sempre tão duros com tantas atrizes ( na maioria das vezes com as belas demais), e tão suaves com esta daqui.

anyway, mulligan e garfield estão ótimos.

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