Mistério da Rua 7


Minha relação com Mistério da Rua 7 pode ser explicado por referências: a discussão central da trama me lembrou o ótimo Presságio, apesar de não ser tão bem discutida. Por outro lado, a sensação foi a mesma que tive depois de ver os dois últimos filmes decentes de M. Night Shyamalan, Sinais e A Vila, duas obras com os mesmos problemas e virtudes: roteiro mal desenvolvido, com furos colossais de lógica, mas também bem conduzidos. No final, aquela sensação agridoce: enquanto repensamos a trama e surge a conclusão de que muita coisa não fez o menor sentido, havia também uma estranha satisfação.

Dirigido por Brad Anderson, dos ótimos O Operário e Expresso Transiberiano, o filme abre com um blecaute, no qual várias pessoas desaparecem, deixando apenas as roupas no lugar onde estavam. Os poucos sobreviventes acabam se reunindo num dos poucos lugares ainda iluminados na cidade, já que as pessoas desaparecem misteriosamente sempre que a escuridão prevalece, algo que se torna pior com o fato de que a duração do dia é encurtada, de forma a haver pouquíssimas horas de luz.

O clima criado por Anderson é sublime, e segura bem as pontas: trabalhando com planos bem abertos, e brincando com os cantos do enquadramento tomados por sombras, não demora muito ao clima ficar tenso. Além disso, apesar de haver claro uso de efeitos especiais, é interessante como o recurso é evitado ao máximo em alguns momentos, e as silhuetas vistas nas ruas são bons exemplos. 

O problema do filme, e principal causa de muitos o estarem detestando (e não tiro a razão) é o roteiro. O principal problema não é a falta de explicações para o fenômeno, e sim a falta de coerência: se somos informados que a única maneira de sobreviver é portando uma fonte de luz, já que afasta as "sombras", então porque em vários momentos elas são capazes de apagar as luzes? E porque o protagonista prefere confiar em lanternas por elas dependerem de pilhas, se toda vez que ele é obrigado a usá-las elas falham? (Embora eu deva dizer que, curiosamente, o filme ganhe um pouco com isso: afinal, assim, os personagens nunca estão seguros).

E se o flashback do protagonista vivido por Hayden Christensen ao menos é interessante, contribui para a trama (além de surgir num momento dramático ideal), o que dizer dos que mostram a personagem de Thandie Newton? Já atrapalhada pela atuação exagerada e incompetente da atriz (que venho gostando cada vez menos), as revelações que surgem sobre ela (especialmente a de que ela era drogada) não contribuem em nada. De sua personagem, há apenas uma característica bacana: é ela quem sempre levanta as hipóteses mais religiosas ao fenômeno, embora nunca consiga concluir seu pensamento.

E se Thandie Newton já atrapalha uma personagem mal construída no roteiro, Hayden Christensen faz um bom trabalho, deixando de lado a inexpressividade que marcou o início de sua carreira. Jacob Latimore é uma boa revelação, surgindo bem em cena desde o tenso momento que marca sua entrada em cena. Mas o destaque vai para John Leguizamo. Assim como Thandie Newton, seu personagem é mal desenvolvido, porém tem uma coisa ainda pior: cabe a ele ser o personagem misterioso que, teoricamente traz uma pista sobre o que aconteceu (a história envolvendo a palavra Croatoan: pesquisem e se decepcionem com a referência), ao mesmo tempo em que deve ser o personagem que se lamenta sobre uma garota enquanto o mundo vai para o inferno. E por mais incrível que pareça, o ator encontra um bom equilíbrio, tornando-se o mais forte e intrigante em cena.

Como vocês podem ver, não há muito o que defender em Mistério da Rua 7. É um filme repleto de problemas, mas funcionou comigo, como eu disse no início. Em Sinais, a motivação da inasão dos alienígenas era imbecil, mas o filme funcionou. Em A Vila, todos sabem o enorme número de problemas na história, mas há inúmeras virtudes nele. Acredito que seja o mesmo caso aqui. Logo, é difícil recomendá-lo, ao mesmo tempo em que não vou fingir que não gostei só para concordar com o resto.

E olhem que guardei o melhor para o final: Mistério da Rua 7 parece ser também uma metáfora sobre o uso de energia, nossa dependência com a tecnologia, e a falta de recursos renováveis em nossa vida. O problema é que os realizadores sofrem do mesmo mal que criticam: se tudo o que sobrou foram as roupas, os edifícios estão cheios de papéis, há muitos carros com gasolina, hospitais cheios de álcool, etc. porque não depender de luz feitas em fogueiras ou tochas? Sério que nenhum personagem pensou nisso e ficaram só procurando celulares e lanternas? C'mon...

NOTA: 6

1 comentários:

diego disse...

Olá, eu sou do blog O Irlandês
http://oirlandes.blogspot.com/

curti muito o Sobre Filmes e Cigarros e fiquei interessado em uma parceria!

dá uma olhada lá no meu blog..

e queria pedir desculpa por confundir o nome do blog na postagem anterior, ja me encarreguei de apaga-la, okay.


aguardo resposta!

e parabens pelo tralbalho!

Real Time Web Analytics