Lixo Extraordinário


Lixo Extraordinário pode ser resumido como o making-of de uma obra de arte. Mas como todo resumo, faltaria as sensações incômodas e maravilhosas que surgem nesse documentário. O filme acompanha os três anos que levaram para Vik Muniz concluir seu trabalho no Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, que é o maior aterro sanitário do mundo. Muniz fez retratos de alguns trabalhadores utilizando os mesmos materiais que estes catavam em seu cotidiano: garrafas, pneus, etc.

Mergulhando numa realidade assustadora, e mostrando a extrema miséria humana as quais os catadores são condenados, o filme é engenhoso na maneira como vai trabalhando o envolvimento do público naquele lugar: se no início, o choque é puramente visual, e de maneira errônea, julgamos pelo humor dos catadores que estes são pessoas felizes, mesmo ali, o filme cuidadosamente vai desconstruindo isso, e mostrando uma realidade ainda mais assustadora, como o relato de uma trabalhadora ao ter encontrado um bebê morto jogado no meio do lixo, e o apelo de outra para que os artistas dessem algum emprego para ela.

Aliás, o melhor em Lixo Extraordinário é esta construção cuidadosa de seus protagonistas: de Tião e Zumbi, dois líderes natos e responsáveis dos catadores, passando pela jovem (e bela) Suellen, suas personalidades cativantes, somadas a suas trágicas histórias, tornam a experiência ainda mais gratificante. E se há um problema no filme, é a maneira como a história de Vik Muniz é contada: é claro que um breve histórico dele e de suas obras seria obrigatório, mas há alguns momentos esporádicos contando trechos de sua vida, especialmente a entrevista de seu pai e com sua avó que soam deslocadas: são bons momentos, mas jogados ao acaso, não se misturam bem com o resto do filme.

Contando com um belo desfecho, bem ressaltado pela ótima trilha sonora de Moby, Lixo Extraordinário é um documentário fabuloso, humano e sensível como poucos. E se há uma reserva que não me permite comentar mais sobre o trabalho, talvez seja a maneira como a diretora Lucy Walker parece ter roubado todos os créditos do filme para si, esquecendo do brasileiro João Jardim, o co-diretor da obra, e, provavelmente, responsável pela parte no lixão, justamente a mais importante do filme.

Triste, mas isso é outra história.

NOTA: 9

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