Fora da Lei


A importância de Fora da Lei já é demonstrada nas cenas de abertura: a família dos protagonistas é expulsa do terreno onde todos os seus antepassados viveram; em seguida, vemos manifestações comemorando o fim da Segunda Guerra Mundial em Paris, quando no mesmo dia, tropas francesas fizeram um massacre em Sétif, na Argélia, uma colônia francesa que com o fim da guerra, acredita que é hora de reclamar sua independência. A partir disso, acompanhamos a jornada de três irmãos: Abdelkader é preso no protesto e enviado para uma penitenciária na França; Messaoud, o mais velho, é enviado para lutar na Indochina, enquanto o mais novo, Said, viaja com a mãe para a França, onde começa a se envolver com o crime organizado.

A relação delicada entre Argélia e França é sentida até hoje, e já havia sido um dos temas de Caché de Michael Haneke, por exemplo, e aqui o roteirista e diretor Rachid Bouchareb (dos fabulosos London River e Dias de Glória) tenta fazer um filme definitivo sobre a questão. Se sai bem no início: o massacre em Sétif é claramente inspirado na abertura de Meu Ódio Será Sua Herança, e a influência de Peckinpah é fortíssima no cineasta. 

Mas é na condução da história depois que os três irmãos se reencontram que o filme começa a escorregar: a estrutura do roteiro é desorganizada, e aos poucos, detalhes importantes começam a ser esquecidos, o que leva ao cúmulo de Messaoud parecer completamente indiferente ao nascimento do seu filho. A cena é tão artificial, que logo surge uma cena expositiva e desnecessária para explicar sua reação, ou falta de reação. Se isso não fosse o bastante, um dos melhores elementos que o filme apresenta é o crescente sentimento ativista de Abdelkader na prisão (que culmina em uma das melhores cenas, quando sua mãe vai visitá-lo), mas o personagem se torna radical demais, e rapidamente. 

Mas talvez o mais decepcionante seja a maneira meio maniqueísta que o diretor mostra a situação: é óbvio que os franceses foram os vilões na situação, mas há exagero nos trejeitos dos personagens, vilania novelesca. Aquela cara de "Eu sou mal, mesmo". Isso atrapalha momentos importantíssimos, como a cena em que Abdelkader se encontra frente a frente com o coronel que o persegue. O roteiro tenta criar um momento em que dois inimigos se enfrentam e se reconhecem "Lutamos por causas diferentes, mas da mesma forma". Mas o momento é estragado pelo maniqueísmo e a mão pesada que o diretor desce no filme.

O que é lamentável, já que tudo indicava que seria um filme absolutamente genial: da fotografia brilhante, que parece não apenas transitar pelas épocas distintas, mas também por gêneros (a abertura lembra um western, já na França, um noir), além de performances dignas, principalmente de Jamel Debbouze. O diretor também acerta nos momentos de mais ação, fora o massacre já comentado, o tiroteio noturno numa emboscada, e a perseguição depois de uma luta de boxe que acaba não acontecendo são cenas fabulosas.

Contando com um desfecho forte, Fora da Lei tinha tudo para se igualar a Katyn, outro filme europeu que faz justiça histórica de maneira ousada e surpreendente. É um pouco decepcionante, mas merece, e muito, ser visto. Nem que seja só pelas ótimas intenções.

NOTA: 7

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