Coração de Cristal


A cena que mais chama a atenção no início de Coração de Cristal é o diálogo entre dois homens em um bar, quando um deles quebra a caneca de cerveja no outro, que não tem qualquer reação. De forma econômica, Werner Herzog nos mostra o estado de espírito dos habitantes da cidade onde o filme se passa: eles perderam o motivo para viver, e parece completamente inútil reagir a qualquer coisa. Outro fato que contrinui para a veracidade da cena, e torna o filme ainda mais sinistro é o fato de que Herzog fez muitas de suas cenas com os atores hipnotizados.

A história se passa numa cidade, provavelmente em 1800 e alguma coisa, que ganhava seu sustento com a fabricação de vidro-rubi, um vidro avermelhado. O inventor doproduto acaba morrendo, e o segredo da fórmula vai com ele, junto ao túmulo. O mestre da cidade começa então a pressionar a viúva do inventor e os trabalhadores para conseguirem fabricá-los novamente, apelando até para superstições (como ao jogar todos os objetos de vidro-rubi em um rio). Ao mesmo tempo, há um profeta que enxerga não apenas a ruína da cidade, como de toda civilização.

Coração de Cristal é um filme lento, sombrio e desesperador. Não é a toa que talvez seja um dos menos vistos da carreira de Herzog. Porém, é claramente um de seus trabalhos mais inspirados, e inspiradores: a sequência do mestre e sua empregada enquanto um músico toca harpa parece ter inspirado a carreira inteira de David Lynch; o tom estático e tétrico lembra grande parte do trabalho de Michael Haneke (especialmente A Fita Branca) e, talvez o mais curioso, há influências claras do filme no recente clássico Filhos da Esperança, especialmente no tom cinzento da fotografia e na cena final, com seus personagens à deriva no mar.

O filme é uma fábula sobre a obsessão conduzindo o futuro do homem. A obsessão do mestre em produzir o vidro-rubi a qualquer custo (mesmo quando, a beira da loucura acredita que o ingrediente faltando seja sangue) em nenhum momento é questionado pelos habitantes, que entram na mesma obsessão, para garantir o seu sustento. Aliás, a própria fragilidade do produto é de uma ironia digna de aplausos, especialmente no título da obra. Graças a esta lógica e a diversas cenas do profeta, é possível entender que Herzog não está falando sobre aquela época, e sim fazendo um comentário contemporâneo ("Será que um dia as pessoas olharão para as fábricas como nós olhamos para as fortalezas decadentes, como sinal da inevitável mudança?"). Ao mesmo tempo, em que é uma interessante metáfora sobre a transição da era medieval para a Revolução Industrial.

No início, dois homens ouvem do profeta que um deles morrerá e o outro dormirá sobre seu cadáver. Os dois não discutem se acontecerá de fato, ou não. Aliás, até ensaiam como o fato ocorrerá. Herzog parece dizer que é inútil profetizar sobre como "o homem é o lobo do homem". É um fato, e aconteceria de qualquer forma (e o momento em que depois disso, o amigo pega o amigo falecido para uma última dança macabra num bar fecha o raciocínio de maneira desesperadora).

Não há uma trama específica em Coração de Cristal, e o mais próximo que tem de um protagonista é o profeta. Ainda por cima, a conclusão foge completamente do arco dramático, e até mesmo da história em si, ao mostrar um grupo de homens que, vivendo numa ilha por décadas, começa a duvidar que o oceano é finito e termina em um grande abismo. Herzog os mostra partindo e desvia o olhar para um grupo de pássaros voando por cima deles.

Em suma, Coração de Cristal é um filme difícil, ao mesmo tempo em que é singular. O resultado da hipnose nos atores é extraordinária, e garante momentos assombrosos, como a dança do mestre na fábrica. Há ainda o olhar extraordinário do diretor para a natureza, cujas rimas visuais enriquecem ainda mais a introdução e o desfecho da obra (a névoa nas árvores, a cachoeira; o profeta em cima da montanha, o homem observando o mar, etc.). Uma obra de arte rara, poética e apocalíptica.

NOTA: 10

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