Cópia Fiel


Em meu texto sobre Império dos Sonhos, comentei que "Eu não vou nem tentar fingir que eu entendi o que diabos eu vi nesse pesadelo de três horas filmado por David Lynch.". Havia duas razões para isso. A primeira é óbvia: eu não saquei a história, apesar de reconhecer algumas idéias (embora, tendo reassistido novamente esses dias, posso dizer que saquei, finalmente). E a segunda é a que defendi no texto: eu tive uma experiência vendo o filme que não seria satisfeita só em compreender onde estava o começo, o meio, ou o fim. A obra funcionou por sua forma, pelas atuações, pela trilha, fotografia, enfim.

Mas porque digo isso? Simples.Aconteceu algo parecido neste Cópia Fiel. Mas aqui, eu entendi sua história perfeitamente. Apenas me dou o benefício da dúvida em sobre o que é o filme. É sobre arte? Sobre a vida? Sobre a maneira como enxergamos a arte reflete nossa visão da vida em todos os sentidos, familiar, etc? Sinceramente, eu não sei. E nem preciso. Tudo o que preciso para admirar esta obra-prima, é reconhecer suas virtudes nada pequenas.
Afina, Cópia Fiel é um filme de idéias. Intrigantes, às vezes se apresentando de forma discreta, mas estão ali, a todo momento: quando Juliette Binoche ouve a frase de uma mulher sobre uma obra de arte, ela chama William Shimell para ouvi-la. Quando a mulher tenta retomar o raciocínio, Binoche a repreende: "Não, diga exatamente o que você me disse antes! Era perfeito!". 

Este pequeno trecho, em si, resume o conflito na trama. William Shimell interpreta um escritor, cuja obra mais recente, defende as cópias de obras de arte. Sua visão é interessante, mas preguiçosa; inteligente, mas vazia; bonitinha, mas ordinária. Ele é convidado pela personagem de Juliette Binoche, dona de uma galeria de arte, que repudia o pensamento do escritor. Os dois fazem um passeio juntos para um pequeno vilarejo na Itália, onde continuarão sua discussão.

Logo, porém, algo acontece: depois de um diálogo misterioso com a dona de uma cafeteria ("Eles nem vão perceber..."), Binoche e Shimell começam a se tratar como um casal de longa data, discutindo questões familiares, e um possível fim do romance. Esta quebra pode significar muitas coisas, e eu não sou inteligente o suficiente para pensar em todas elas, mas acredito que o roteirista e diretor Abbas Kiarostami esteja brincando com nossa percepção quanto aos personagens.

No início, quando Binoche atacava as teorias do escritor, apesar de ter bons argumentos, a sua insistência parecia arrogante, já que Shimell não parece realmente dedicado a mudar dogma algum: como ele confessa, escreveu o livro apenas para se convencer de suas próprias idéias (e a história que o inspirou a escrever o livro é tocante, e surpreendente na trama). Porém, depois de vermos Binoche como uma mulher casada, solitária, e mãe do adolescente mais chato da história, e Shimell, um pai e marido ausente, aos poucos nossa visão não apenas sobre os personagens, mas também de suas idéias e ideais mudam junto. 

E o mais impressionante: apesar de ser uma obra calcada no pensamento racional, Cópia Fiel funciona maravilhosamente bem no emocional, algo que só poderia acontecer com atuações perfeitas e instigantes como as de William Shimell e Juliette Binoche. Se o primeiro eu sinceramente desconhecia, Binoche oferece uma de suas atuações mais bem trabalhadas, e levando em conta seus trabalhos em Código Desconhecido, A Liberdade é Azul e outros, dá pra saber que não é pouco.

Fechando com uma rima visual absolutamente perfeita, Cópia Fiel é um filme extraordinário, destes que a gente sabe que as discussões em torno dele levarão anos para deixarem de ser interessantes. 

Uma poderosa discussão sobre a arte, vida, amor, e muito mais. Não necessariamente nessa ordem. Ou em qualquer ordem.

NOTA: 10

PS: A Palma de Ouro em Cannes de Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas ficou ainda mais esdrúxula vendo Cópia Fiel.

1 comentários:

Nádia Lamas disse...

Adoro seu site, mas aqui vou discordar de você... achei o filme um saco. No quesito chatice, empata com o tailandês (embora eu tenha ligeira preferência pelo segundo). Considerando-se que chatice seja condição sine qua non para a concessão da Palma de Ouro, devem ter decidido no unidunitê...

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