Bruna Surfistinha


Bruna Surfistinha é um filme quase acima da média. Quase ótimo, aliás, quase excelente. Apresenta um diretor promissor, e uma atriz não apenas se superando, mas em uma interpretação brilhante, e é uma pena que não tenha tido um roteiro mais cuidadoso. Apesar dos leves tropeços nos dois primeiros atos, o tom do filme é genial: realista, mas aproxima o espectador com um humor curioso, ganha o público na safadeza. E também joga tudo pro ralo em um desfecho aborrecido.

Deborah Secco interpreta Raquel, uma garota que foge de casa para se tornar massagista (daquelas com final feliz). Adotando o "nome de guerra" Bruna, ela se torna muito boa em seu ofício, e começa a trabalhar em um blog, onde interage com seus clientes e onde começa a fazer ainda mais sucesso. A honestidade do filme é marcante: não há tentativa qualquer de fazer com que Bruna merecesse uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, se é que vocês me entendem... E o grande responsável por este triunfo é o diretor Marcus Baldini, estreante, que demonstra inteligência e coragem na maneira como lida com a história: basta notar a naturalidade das cenas de sexo, e a maneira como cada uma reflete as fases da carreira de Bruna.

É uma pena que o roteiro recorra a muletas desnecessárias, quando não consegue responder a uma pergunta fundamental: mas porque diabos ela resolve virar prostituta? O roteiro tenta dizer que é por ser adotada, porque ela ouve o pai mastigando (e isso não faz sentido, já que ao menos a mãe da garota é atenciosa e carinhosa, e sua única desconfiança se prova justificadíssima). A resposta mais provável é que ela foi iludida pela grana, e acabou gostando. Se o filme assumisse isso, seria sensacional. Na verdade, faltou cinismo: faltou reconhecer, por exemplo, que o personagem de Cássio Gabus Mendes é um medíocre, daqueles homens que acha que porque transou com a mulher, tem direito sobre ela, além de poder posar como conselheiro, e até figura paterna. Um pouco de cinismo faria bem, principalmente ao ato final.

Deborah Secco está impressionante, tira de letra todo o arco dramático da garota, e só se atrapalha no final, por culpa do roteiro, que exige uma mudança de comportamento brusca, que nem Meryl Streep tornaria verossímil. Mesmo assim, é admirável que Deborah, depois de atuações apenas razoáveis (Caramuru - A Invenção do Brasil) ou constrangedoras (A Cartomante) se apresente como uma atriz tão surpreendente. É torcer para que ela se encontre na carreira. Há também a atuação divertidíssima de Drica Moraes, a única a conseguir roubar a cena de Deborah. E Cássio Gabus Mendes está simpático, mas seu personagem é tão babaca que não dá para levar a sério.

Mas apesar dos problemas, no final das contas o saldo é positivo: surge um diretor promissor e uma atriz que depois de anos, se encontra de vez na carreira. Vale conferir, nem que seja só por isso.

NOTA: 7

4 comentários:

Alan Raspante disse...

Gostei do filme. Achei uma grata surpresa. Li bastante comentários falando sobre a direção de Baldini. Achei a direção eficiente e bacana, até porque foi a primeira realização do cara.

Secco é realmente o destaque do filme. Só Drica conseguiu ofuscar mesmo.

[]s

Lomyne disse...

Olha, fiquei com muita vontade de ver. Só acho meio injusto da sua parte dizer que a Deborah Secco ainda não tinha se encontrado. Basta uma olhadinha em qualquer novela pra perceber que ela sempre manda muito bem quando faz papel de biscate. Agora só oficializou esse certo talento nato.

Quéroul disse...

sempre que eu vejo Deborah Secco no cinema, eu me lembro como gostava dela em Confissões de Adolescente. ela é sim uma boa atriz, mas acho que a vida em revistas de fofoca meio que fazem a gente esquecer que ela é talentosa, e não só um painel de tatuagens equivocadas...

eu gostei do filme, bastante. adorei Drica Moraes, Fabiula Nascimento, que em, sei lá, duas cenas, brilha horrores... e a Deborah tá linda, o filme é dela.
o roteiro é bem fraco, se for pensar bem, mas o 'livro' em que foi baseado também não é um nobel de literatura, né? e, no fim das contas, a vida da Bruna Surfistinha é muito comum, só tem esse diferencial internético no meio.

não tem muito como o filme ser sensacional, embora seja muito bacana.

Rafaela Paiva disse...

Concordo contigo de que faltou cinismo pra fazer a história ganhar corpo e a empatia de quem tá assistindo. Talvez seja exatamente por isso que o filme acabou sendo revestido por um verniz moralizante que, sinceramente, eu acho que minou grande parte dos créditos que um dia fosse possível apontar sobre uma obra (se ela fosse) despretenciosa. É algo similar ao que acontece com filmes sobre drogas, por exemplo - pelo menos a maior parte deles (eu excluo aqui meritocraticamente o Trainspotting).
Enfim, fora isso, não enxerguei nenhum motivo pra uns pontinhos a mais na atuação de quem quer que fosse, exceto da Drica. A trilha sonora também força uma barra com a melancolia obvia de Creep, do Radiohead - além de repetitiva no filme. Aliás, um desserviço à banda com uma discografia facinante (e muitas vezes igualmente melancólica) simplesmente reduzida à composição de um argumento mixuruca sobre o escape de uma adolescente birrenta.

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