Batismo de Sangue


Nunca entendi a cisma da mídia nacional com filmes que retratam a Ditadura Militar. Quando Batismo de Sangue foi lançado, inúmeros textos foram produzidos com o mesmo argumento: "Ai, nós pobres jornalistas estamos cansados de filmes sobre a Ditadura. Chega, né?". O que eu acho estranho é que, apesar de sim, haver um bom número de produções sobre esse período, ele continua sendo o mais nebuloso da história recente do Brasil. Logo, o número de produções claramente se justifica. 

Só posso concluir que estes cansados de filmes sobre a Ditadura são os que caçoam dela, chamando-a de "Ditabranda". Apelido perverso, desrespeitoso e imbecil.

E Batismo de Sangue não é um filme absolutamente perfeito, mas além de respeitar a importância do período, tem um enorme respeito pelos personagens, e pela inteligência do público. Conta a história de um grupo de freis dominicanos que ajudam guerrilheiros da ANL em suas ações. Identificados pela polícia depois de uma ação mal-sucedida, logo eles se espalham pelo Brasil, mas não conseguem escapar da perseguição brutal dos militares.

Se há um problema no filme de Helvécio Ratton (talvez, um dos diretores nacionais mais subestimados) é o ritmo às vezes lento demais, e o desenvolvimento ralo de alguns personagens, especialmente os dois torturados brutalmente (numa sequência fabulosa) que acabam delatando um importante esquema. Por outro lado, há inúmeros motivos que compensam estas falhas.

Começando pela própria direção de Ratton, sempre atenta, criando rimas visuais riquíssimas, como a primeira missa vista em cena, com a última rezada pelo grupo na cadeia, que marcam momentos importantíssimos na narrativa. Além disso, as atuações do elenco são muito acima da média: Daniel de Oliveira faz de Frei Betto uma figura óbviamente frágil, mas forte e intensa, mas o filme pertence mesmo a dois atores: Cássio Gabus Mendes, absolutamente extraordinário como o "Papa" (o momento em que toma um cafézinho antes de uma tortura é icônico), e Caio Blat, cujo arco dramático é o mais complexo e o mais importante. Inicialmente visto como um rapaz cheio de vida, aos poucos é tomado pelo pessimismo, até chegar a paranóia que o leva ao ato visto na primeira cena, e não apenas a interpretação de Blat é perfeita para compreendermos sua jornada, como também a estratégia visual que o diretor aplica durante suas cenas.

Prestando um serviço enorme aos jovens desavisados que, graças a nossa querida mídia pensam que a Ditadura Militar não foi tão ruim assim (e não são poucos, infelizmente), Batismo de Sangue é um filme indispensável não só para quem ama o cinema nacional, mas para quem ama o cinema político praticado por diretores como Costa Gavras, que deve ter sido enorme influência para este filme. Uma obra obrigatória, que por pouco, não é uma das melhores da década passada.

NOTA: 9

1 comentários:

Quéroul disse...

já eu não suporto o Gabus, acho histérico demais. o que mais me incomoda nos filmes 'sobre ditadura' é que os torturadores SEMPRE gritam demais, sempre cospem demais, sempre falam 'porra' demais. é um clichê que eu particularmente detesto, e sempre me deixa com aquela impressão de caricatura, o que diminui, pra mim, a importância macabra desses personagens. eles são ruins, são o mal encarnado, não palhações cuspidores.

mas Batismo de Sangue carrega as duas cenas mais lindas que eu já vi num filme sobre o tema: os presos cantando o Hino da Independência, e a eucaristia no cárcere.
não me lembro de cenas mais bonitas e fortes no cinema nacional (e internacional, sobre ditadura).
e eu adoro Caio Blat, ele acaba se destacando no elenco, que é bem medíocre.

belo filme, apesar de irregular.

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