Almas à Venda


Se fosse tão bom quanto a atuação de Paul Giamatti, seria um dos melhores filmes do ano. Como ficou, é um filme que conquista pela criatividade e pelo equilíbrio sensível entre comédia e drama, mas fica sempre no "quase". É quase genial, quase surpreendente. Trata-se de um filhote dos filmes escritos por Charlie Kaufman, especialmente Quero Ser John Malkovich, o que não é um problema: Mais Estranho que a Ficção também foi, e ainda assim é genial. Mas é justamente na comparação entre os filmes de Kaufman que Almas à Venda sai perdendo.

Paul Giamatti interpreta... Paul Giamatti, um ator que tem encontrado problemas com o ofício, principalmente na adaptação da peça russa Tio Vanya. Ele não consegue mais separar-se do papel, e leva para casa todas as angústias presentes nele. É então que seu agente recomenda que ele conheça o serviço do Depósito de Almas. Baseado na idéia de René Descartes de que a alma é uma parte do cérebro, eles a retiram, deixando a pessoa livre de angústias e sensações. Ao mesmo tempo, acompanhamos uma traficante de almas, que leva almas de trabalhadores pobres russos para os Estados Unidos.

O início é formidável: apresenta os personagens e a história com calma, deixando com que tudo faça sentido aos poucos, e utilizando uma lógica visual brilhante, além de sutilezas bem vindas (repare que quem usa a alma da poeta russa jamais consegue comer, por exemplo). Além disso, o roteiro trabalha bem a angústia do protagonista, ao mesmo tempo em que trabalha com um humor inusitado que combina bem com a obra, como o momento em que um personagem aconselha uma amiga a cometer eutanásia na mãe de maneira completamente despreocupada.

Mas, como já disse, o melhor do filme é a atuação de Paul Giamatti: desde a cena de abertura em que ensaia um diálogo da peça, o ator já impressiona. Sem sabermos nada sobre a trama do filme, já entendemos qual o seu drama. Mas é depois, quando fica sem alma, e depois, com a alma da poeta russa que seu trabalha realmente fica formidável, e as cenas do ensaio da peça que refletem essas situações são brilhantes (especialmente quando, sem alma, diz seus diálogos como numa screwball comedy). A diretora Sophie Barthes também faz um belíssimo trabalho nesse sentido, ditando uma lógica visual diferente para cada alma: reparem como Paul é visto sempre em contra-luz e com roupas escuras quando utiliza a alma da poeta russa. Há ainda, uma curiosa homenagem a outro filme com Giamatti, o genial O Anti-Herói Americano.

Enquanto isso, David Strathairn faz um trabalho divertido como o médico que cuida do Depósito, enquanto Emily Watson é sabotada por um grave problema no roteiro: a maneira como seu marido lida com ela não chega a mudar depois da retirada da alma, então como acreditarmos que ele mudou tanto quanto ela afima? (Provavelmente, ele não a amava tanto, mas o filme não acredita nisso...). 

E este não é o único problema do roteiro, infelizmente, que perde a construção cuidadosa feita no início. A peça do Tio Vanya, por exemplo é completamente esquecida da metade para o final, e há alguns problemas bobos, como o momento em que vemos a traficante na Rússia, e logo em seguida, entrando num hotel em Nova York. Mas talvez, o mais decepcionante seja a maneira pobre que o roteiro desenvolve a personagem Nina, a traficante, que também é prejudicada pela atuação apenas correta de Dina Corzun. E isso é uma pena, já que o filme volta a acertar nos últimos dez minutos, especialmente na belíssima cena final, quando dois personagens "se unem" quando a câmera tira a imagem dos dois caminhando pela praia de foco, e no momento em que Giamatti vê o interior de sua alma (a melhor idéia do filme, que também é pouco explorada).

Não é pouco. Mas poderia ser muito mais.

NOTA: 8,5

1 comentários:

Rafael W. disse...

Concordo, Paul Giamatti interpretando ele mesmo é a melhor coisa do filme.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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