O Exorcista


Primeiro: é um panfleto católico descarado: a Igreja Católica vista como um grupo humilde que silenciosamente toma conta do mundo. O Diabo, no filme, é a puberdade. Não é a toa que quase todos os atos que a garota possuída faz, tem conotação sexual: se masturba com um crucifixo, grita "me lambe", "a vadia é minha" e outras pérolas.

Mas nada disso diminui a força de O Exorcista, que, dirigido com inteligência e cuidado por Willian Friedkin reinventou o gênero de terror, e se tornou uma obra insuperável. Sabe porque nenhum, absolutamente nenhum filme que mostra um exorcismo lançado desde os anos 70 convence? Simples: porque vimos O Exorcista, e não há nenhum truque em ConstantineO Exorcismo de Emily Rose, O Último Exorcismo ou qualquer outro que tenha conseguido ultrapassar o alto nível deixado por Friedkin.

Constrói o clima aos poucos: no prólogo vemos Padre Merrin reencontrando seu arqui-inimigo (que as recentes pré-continuações tentaram mostrar, sem sucesso). Em seguida, conhecemos Reagan e sua mãe, Chris que, recém divorciada, tenta um novo começo com a filha (e olha aqui a questão religiosa de novo: uma filha de pais divorciados, ó pecado fatal, é possuída), e o padre Karras, que trata psicologicamente de outros padres, enquanto questiona sua própria fé.

A maneira encontrada para mostrar o início da possessão de Reagan é genial: ao invés de clichês paranormais, o filme nos aterroriza com cenas em hospitais, exames invasivos, agulhas enfiadas no pescoço da garota. E há um cuidado fabuloso com detalhes: quando vemos pela primeira vez o diabo em Reagan numa sessão de hipnose, assim que ele assume o controle da garota, os personagens ao redor reagem com repulsa, como se o cheiro do ambiente tivesse mudado. E o que dizer do cuidado da direção de arte no quarto da garota, ao mostrá-lo inicialmente como um quarto normal de uma garota, para depois, através das cores e da temperatura do ambiente, quase lembrar uma caverna congelada?

E Friedkin enche cada cena com seu talento particular em criar tensão: no momento em que Chris é interrogada pelo divertido investigador interpretado pelo grande Lee J. Cobb (personagem que deve ser referência para Tarantino, aliás), reparem em como o enquadramento começa a se fechar quando a mãe suspeita que o detetive esteja jogando a culpa de um homicídio na garota, e no exato momento em que ela percebe que era apenas um blefe, o enquadramento volta a se abrir. Um momento sutil e brilhante, como vários outros no filme.

E nisso, chegamos ao momento do exorcismo, uma cena tão poderosa que se tornou um momento icônico na história do cinema. É fabuloso, um clímax fortíssimo. Além da atuação de Linda Blair, perfeita não só nestas cenas, como também nas do início, Jason Miller fecha o arco dramático de Karras com perfeição, aproveita um momento grandioso para o desfecho de uma atuação sutil e inteligente, além da presença de Merrin, que interpretado com o habitual talento de Max Von Sydow, não precisa de mais do que uma cena para nos convencer de sua capacidade para lidar com o fenômeno. A seriedade e rigidez de Sydow não nos deixa dúvidas: Merrin pode aparecer pouco, mas ele é o cara. 

Utilizando efeitos práticos de realização complexa (e que fizeram as filmagens durarem mais de um ano), vômitos e levitação em meio a uma cenografia sinistra e as atuações hipnóticas, ali se fez um clássico. O Exorcista é um triunfo de direção e atuações acima do que está nas entrelinhas do roteiro. No final do filme, é impossível ter a sensação incômoda de termos visto uma propaganda asquerosa. 

Ainda bem.

NOTA: 10

4 comentários:

João Marcos Flores disse...

Cara, sua interpretação de O Exorcista é diametralmente oposta à minha!

O filme é uma crítica à demonização da puberdade, e não uma defesa desta!

Não é possível haver um filme mais anti-católico do que O Exorcista.

Tiago Lipka disse...

É fácil vencer seu argumento: veja os comentários do diretor no DVD. Fica bem mais claro.

João Marcos Flores disse...

Um filme deve ser analisado pelo que ele diz por si só, não pelo que seu diretor disse em uma entrevista.

E ainda assim, conhecendo um pouco sobre William Friedkin - assim como maioria dos diretore da chamada Nova Hollywood -, não vejo a possibilidade de ele estar defendendo a demonização da puberdade.

Tiago Lipka disse...

Ok,vamos lá... no filme, a garota está possuída pelo Demônio, não há outra explicação. É isso, e ponto. Tanto que o ritual a ajuda. Como isso pode ser visto como crítica a Igreja Católica, que inclusive, vem fortalecendo cada vez mais a atividade do exorcismo?

E a garota está possuída. Logo, todos os seus diálogos SÃO ditos pelo Demônio. Logo, é o Demônio que cita todas as falas de cunho sexual. Logo, Sexualidade = Demo.

Sem falar que o filme cria toda uma mitologia para o Padre Merrin, e a própria construção do Padre Karras é interessante: é um anti-herói da época (boxeador, até). Mas é um padre. E fodão. Peita o Diabo e ganha a parada.

(Sou fã do Friedkin, mas ele não é exemplo da contra-cultura dos anos 70).

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