O Discurso do Rei


O Discurso do Rei vem sendo comparado com algumas chatices patrocinadas pela Miramax para angariar Oscars nos anos 90, como Regras da Vida ou Shakespeare Apaixonado, mas a comparação é injusta, pra não dizer imbecil: Shakespeare Apaixonado era uma comédia romântica de luxo, idiotizava os personagens e o público em prol do entretenimento, muito ao contrário de O Discurso do Rei, que não apenas respeita seus personagens, como mantém suas características, mesmo as mais desagradáveis, como a reprovação de George VI porque (oh meu Deus, porque?) seu irmão quer casar com uma mulher divorciada. O efeito disso é curioso: é claro que não concordamos com o protagonista, mas o entendemos e ele soa muito mais real, e automaticamente, nos aproximamos muito mais. Aliás, o cuidado do roteiro é tão grande que mesmo Edward, o irmão abusivo e meio paspalho de George tem uma saída de cena digna.

George VI é o filho do rei da Inglaterra, mas não o primeiro substituto real, que pertence a seu irmão mais velho Edward. Sofrendo de uma gagueira que impede que ele se dirija ao público (ou até que conte uma história para suas filhas, o que é mostrado de maneira comovente), sua mulher começa a buscar ajuda de diversos especialistas até chegar em Lionel Logue, um homem comum com maneiras nada ortodoxas de trabalhar, e que não se intimida nem um pouco em auxiliar um homem da Corte.

Qualquer pessoa que já trabalhou com fonoaudiologia vai se divertir ainda mais com a maneira inspirada que o filme mostra os exercícios (e aposto que fonoaudiólogos ficarão horrorizados com o momento em que um profissional indica cigarros para "abrir a laringe"), mas é a relação entre Lionel e George VI (ou melhor, Bertie) que faz o filme ser realmente sensacional. Pressionado pelo pai e atormentado pelo irmão mais velho, Bertie acaba se tornando uma figura íntegra, mas apavorado com a possibilidade de exercer o cargo de rei, algo que se torna praticamente inevitável com a insistência de Edward em se casar com a tal moça divorciada (oh Deus!). 

E nesse sentido, a interpretação de Colin Firth é mais do que eficiente: o ator acerta em cada detalhe e sutileza. Desde a gagueira, que é algo dificílimo de acertar (grandes atores já erraram feio nisso, como Paul Giammatti), Firth em alguns momentos deixa que só a sua expressão corporal diga muito sobre o que está sentindo ou pensando: reparem que na primeira consulta com Lionel, apesar de verbalizar desconforto e frustração, pela primeira vez ele parece a vontade em um ambiente, chegando a sentar meio reclinado na poltrona. Como já venho dizendo desde que escrevi sobre Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez? e Direito de Amar, Colin Firth é um ator que renasceu com genialidade em sua carreira.

Mas o resto do elenco não fica atrás: Geoffrey Rush faz de Lionel uma figura simpática, e apesar de recorrer ao humor físico e quase chegar ao ponto do exagero, jamais faz com que o público duvide de sua capacidade de ajudar Bertie. E Helena Bonham Carter volta a mostrar a grande atriz que é capaz de ser. Apesar de não haver muito que possa trabalhar, ela retrata com sensibilidade o enorme carinho de sua personagem para com o marido. Guy Pearce aproveita bem a oportunidade de interpretar Edward (e fico na torcida de que ele volte a protagonizar algum filme interessante, como era de costume a tempos atrás). O único destaque negativo vai para Timothy Spall, errando feio na composição de Winston Churchill.

Tom Hopper dirige bem o filme, mesmo que exagere nos movimentos de câmera em alguns momentos, mas nada que atrapalhe o ótimo desenvolvimento da narrativa. Com a parte técnica competente como sempre se espera de um filme de época, é perfeitamente compreensível entender porque ganhou tantas indicações ao Oscar, já que seu apelo é também muito mais próximo do que se costuma ver na premiação. Mas é injusto considerar que sua presença na lista do Oscar seja um exagero ou um equívoco já que, há sim, qualidades inquestionáveis para entender seu sucesso.

NOTA: 10

1 comentários:

Anônimo disse...

Adoroo esse blog, mas comprar Regras da vida a shakespeeare apaixonado, e à filmes feitos sob medida pra abocanhar oscar é no mínimo, uma heresia rsrss

Regras da vida fala sobre temas fortes, duros, temas que raramente o cinema hollywoodiano ousa falar sobre, e que a academia odeia! orfandade, desigualdades sociais, aborto, e tudo isso sem cair no esteriótipo, sem levantar bandeiras, com atuações delicadas, aliás, o filme todo é delicado, porém, corajoso.

não tenta passar lição de moral, de qual seria escolha certa ou errada, em qualquer caso, seja em relaçao ao aborto, a escolhas de vida, a vocação, e sim, que existem apenas escolhas. acho louvável qdo o cinema respeita nsosa inteligencia a esse ponto.
Acho um filme belíssimo, de temas tão fortes, importantes e tão pouco explorados. Comc erteza não é bem o que a academia gosta de ver. aacademia gosta de historinhas de superação, de criança orfã ficando milionaria, de historias politicas, como essa do discurso do rei, de superação, ou filmes como uma mente brilhante.

mas nao gosta de ver orfãos que estao ali, abandonados, e o filme não mastiga o que será deles no final, qual o caminho correto para superaçao, qual a escolha correta que uma mulher deve tomar.

falei demais rsrs

abraços

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