Minority Report - A Nova Lei


Minority Report - A Nova Lei apresenta uma experiência fascinante e frustrante ao mesmo tempo. Tinha tudo para ser o melhor filme de Steven Spielberg. Com duas horas e meia, em suas primeiras horas lembra a qualidade de outras excelentes adaptações de Phillip K. Dick, como O Vingador do Futuro, O Homem Duplo e, claro, Blade Runner. Infelizmente, em sua meia hora final, acaba lembrando mais as adaptações constrangedoras do autor, como O Vidente e O Pagamento.

Em 2054, os Estados Unidos estão a beira de aplicar o sistema Pré-Crime no país. O sistema, que funciona em Washington, atua através de previsões feitas por três Pre-Cogs, que prevêem quando ocorrerão assassinatos. Com o nome da vítima e do assassino, cabe aos agentes do Pré-Crime evitarem que o crime ocorra. O sucesso do sistema, comandado por Lamar Burgess (Max Von Sydow) e John Anderton (Tom Cruise) começa a ser questionado pelo agende federal Danny Witwer (Colin Farrell), que não apenas duvida da efetividade do sistema, como também de suas implicações filosóficas, digamos. Tudo acaba ficando ainda mais complicado quando os Pré-Cogs prevêem que John Anderton irá cometer um assassinato em poucos dias, jogando-o numa fuga para descobrir não apenas sobre o tal crime, mas também sobre a natureza do Pré-Crime.

O roteiro de Jon Cohen e Scott Frank é hábil ao fazer a complicada tarefa de discutir o tema e aproveitar as idéias da história ao máximo para criar ação, e sem pender a balança para nenhum dos lados, num equilíbrio admirável. E Spielberg acerta perfeitamente no tom da direção, criando um visual futurista fantástico, e utilizando os efeitos especiais de maneira inteligente, e não apenas para a ação: o momento em que Anderton assiste holografias tridimensionais de seu filho desaparecido é fabuloso. 

E as sequências de ação merecem um destaque por si só pela criatividade, com destaque mais do que especial para a cena das "aranhas" (que inclui um longo e genial plano plongée), e a fuga de Anderton pelo shopping com a personagem de Samantha Morton que, podendo ver o futuro, sabe exatamente o que fazer para saírem dali sem serem vistos. E se não fosse o suficiente, Spielberg ainda cria as sequências de humor negro mais bizarras de sua carreira, como ao mostrar Tom Cruise correndo atrás dos próprios olhos, a sequência da cirurgia aplicada pelo médico estranho interpretado por Peter Stormare ou, minha favorita, quando Cruise cai numa aula de yoga.

E Tom Cruise acerta no tom da composição discreta, enquanto Max Von Sydow deixa que sua voz e figura imponente façam todo o serviço (e acerta, é um grande ator). Mas são dois coadjuvantes que realmente se destacam: Samantha Morton faz uma atuação histérica, exagerada e podia botar tudo a perder, mas é admirável como ela controla bem a personagem, e Colin Farrell diverte como Witwer, numa composição cuidadosa e sacana: sempre com um sorriso disfarçado, é óbvio que o personagem se diverte com toda a bagunça da situação (mesmo quando testemunha a fuga de Anderton, logo em sua frente), mas aos poucos, também se revela muito mais sério e correto do que parecia a princípio.

Infelizmente, nem tudo são flores: o roteiro também tem sua parcela de erros, como a insistência de repetir em uma cena a informação de que "a faixa não pode ser tirada antes de 12 horas", e a natureza dos Pre-Cogs logo leva a uma pergunta: eles só conseguem ver assassinatos que ocorrem em Washington? E caso o Pré-Crime seja aprovado nacionalmente, serão apenas os três para o país inteiro? 

Perguntas como essas poderiam ter sido exploradas no último ato. Mas ao invés disso, o roteiro e Spieberg parecem se dedicar a sabotar tudo que foi construído com tanto cuidado e inteligência, ao reduzir a história num mistério bobo e previsível. Até mesmo o visual parece menos inspirado ali. É deprimente que tenham acreditado que tudo que queríamos saber no final era quem tinha enganado Anderton, e ainda se esforce, ou melhor, force um final feliz que soa estúpido e simplório. 

Uma história de Phillip K. Dick merecia um final melhor.

NOTA: 8

2 comentários:

Rafael W. disse...

Excelente filme do Spielberg, que só não é obra-prima por causa de algumas forçadas e furadas do roteiro.

http://cinelupinha.blogspot.com/

annastesia disse...

Admito que passei a gostar de Minority report após a revisão. Na verdade, o meu problema se chama Tom Cruise. Sim, é verdade. Já assisto a qualquer coisa ligada ao nome do "sorriso artificialmente Colgate" com o maior pré-conceito e preconceito. Mas não poderia fazer isso com Spielberg e diminuir o valor de sua obra.

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