Cisne Negro


Cisne Negro é o melhor filme norte-americano a ser lançado desde Sangue Negro, e o suspense mais perturbador desde o Possuídos de Willian Friedkin. Mais uma vez, Darren Aronofsky se supera, e entrega algo além de qualquer expectativa. Um filme de terror psicológico artístico e fascinante que, imagino, será apreciado em outro nível por atores: é uma metáfora absolutamente perfeita e aterrorizante sobre atuação, sobre a criação da personagem, e por já ter trabalhado com teatro, tenho certeza que quem vive disso irá enxergar sub-textos e sutilezas ainda mais fascinantes. Mas o público em geral claramente deverá apreciar essa obra-prima, já que apresenta um estudo de personagem brilhante em forma e execução.

Nina é uma bailarina de 28 anos, mas tratada como criança pela mãe, algo que acaba se manifestando em sua personalidade, movendo-se com delicadeza e fragilidade e falando suavemente. Ganhando a oportunidade de interpretar uma reimaginação do clássico O Lago dos Cisnes, ela enfrenta o desafio físico e psicológico de interpretar o Cisne Branco e o Cisne Negro. Extremamente perfeccionista por cada movimento, ela acaba esquecendo de reagir emocionalmente a dança, o que a impede de ser "perfeita" aos próprios olhos, e aos do diretor.

Há tantos elementos geniais em Cisne Negro que é até difícil citar. O filme consegue a proeza, por exemplo, de permitir que qualquer leigo enxergue as qualidades e defeitos na dança das personagens: vemos com clareza o que o diretor da peça cobra tanto de Nina, e o que tanto admira na sua rival, Lilly. A constante preocupação de Aronofsky de conferir elementos particulares do mundo do balé também colabora com a completa verossimilhança da obra, que remete a O Lutador principalmente ao mostrar o enorme e desgastante esforço físico necessário para a atividade (e ao ser filmado quase todo em câmera na mão, o filme ainda tem uma curiosa veia documental).

Mas nenhum esforço funcionaria sem a atuação hipnotizante de Natalie Portman, de longe uma das mais impressionantes dos últimos anos. Além do óbvio aprendizado da atriz quanto ao balé (Aronofsky sempre prefere mostrá-la em planos mais abertos para mostrar sua dedicação), Portman constrói Nina de maneira sublime, retratando seu desequilíbrio emocional e psicológico, que se tornam cada vez mais complexos e assustadores conforme o filme avança. E Mila Kunis certamente vem sendo subestimada pelas premiações, já que seu trabalho é perfeito em contrastar em praticamente tudo com o cuidadoso trabalho de Portman.

Além delas, Vincent Cassel interpreta o diretor de maneira forte e autoritária, um personagem curioso, aliás, que parece ter transformado o teste do sofá em um método profissional (e mesmo assim, Cassel acaba ganhando a confiança do público, o que é fascinante). E se Barbara Hershey interpreta a mãe de Nina com um misto de carinho e crueldade, Winona Ryder em sua ponta como Beth faz seu melhor trabalho desde As Bruxas de Salém, para não dizer de toda sua carreira.

Matthew Libatique vem demonstrando cada vez mais que é um dos grandes diretores de fotografia do momento (atrás talvez só de Emmanuel Lubezki e Roger Deakins), Clint Mansell é mais uma vez injustiçado com um trabalho fabuloso na trilha sonora, já que suas variações para os temas de Tchaikovsky podem usar as partituras originais, mas são trabalhados com enorme criatividade: não dá pra dizer que ele se aproveitou sem criar nada em cima. Aliás, até os efeitos especiais foram subestimados, já que são absolutamente perfeitos e discretos, servindo com perfeição a narrativa.

Contando com um desfecho fabuloso que remete a O Espelho e alguns filmes de David Cronenberg, como Spider - Desafie Sua Mente e Mistérios e Paixões (além da óbvia referência a A Mosca), Cisne Negro é uma obra-prima inquestionável, destas raras que vão deixar estudiosos de cinema boquiabertos ao estudarem seus enquadramentos (em especial, a maneira como os espelhos acabam participando ativamente das cenas). 

(E, na boa: desconfie bastante de quem diz que o filme não é grande coisa, viu?)

NOTA: 10

7 comentários:

Dave Coelho disse...

Muito, muito bom esse texto, Lipka.
Não é fácil falar desse filme e você fez isso muito bem.
Só não curto essas afirmações muito fechadas, tipo 'melhor filme norte-americano a ser lançado desde Sangue Negro' e 'Winona Ryder em sua ponta como Beth faz seu melhor trabalho desde As Bruxas de Salém, para não dizer de toda sua carreira'.
De resto eu concordo com louvor.
Cisne Negro é um filmaço.
Abração

OOnisciente disse...

Concordo com o Dave Coelho, você escreveu muito bem sobre Cisne Negro! Eu NUNCA conseguirei escrever sobre ele. E quanto ao filme, realmente magnífico, fantástico, estupendo, maravilhos! Pretendo tê-lo em minha estante em breve! Melhor que A Origem! Enfim, acho que não cabem comparações.
Até mais!

Tiago Lipka disse...

Dave, também não sou fã desse tipo de afirmação, mas diante de filmes como esse, não me aguento. Fora ele, só Sangue Negro e Filhos da Esperança tem esse tipo de afirmação.

Abraço!

Kelvelyn disse...

Muito bom o texo.

O filme é realmente impresionante em todos os sentidos.

Quéroul disse...

achei lindo de viver, daquele tipo de filme que com um minuto, eu já queria me esgoelar de chorar. um filme emocionante na medida certa, e assustador.
as atuações de Portman e Cassel estão surpreendentes, mas acho que Kunis está soberba.

Gabriel disse...

Saí do cinema extasiado!

filme realmente fantástico... com certeza o melhor desse ano. Darren Aronofsky é realmente um gênio! Ficou ainda mais fácil com atuações tão soberbas...

Anônimo disse...

Espetacular!! concordo 100 por cento com duto que foi dito.

E quanto a mila kunis, essa moça tem tanto talento, espero que hollywood nao a empurre pra escanteio, em comedias romanticas demais.

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