As Invasões Bárbaras


Que me perdoem O Poderoso Chefão: Parte 2, Antes do Por do Sol e outros: nunca houve uma continuação tão extraordinária quanto As Invasões Bárbaras, sequência do também excelente O Declínio do Império Americano. Mantendo a riqueza nos diálogos da obra anterior, o filme adiciona ao humor e inteligência uma dramaticidade envolvente, terna. 

17 anos depois, os amigos se reencontram em circunstâncias tristes: Rémy está a beira da morte. Divorciado e distante dos seus filhos, ele definha aos poucos num hospital público e superlotado no Canadá. Seu filho, Sébastien, que para desespero do pai nunca leu um livro e é um capitalista bem sucedido suborna membros do hospital para dar um quarto só para ele, além de pagar a filha de uma das amigas do pai para aliviar sua dor com o uso de heroína. 

Tematicamente, é assustadora a profundidade do roteiro: As Invasões Bárbaras, que aproveitam o Declínio do Império para começar, vem no filme através de vários elementos: desde o 11 de setembro (cuja referência é a mais óbvia), nas drogas, no câncer e até mesmo no ressentimento da família de Rémy. As ideologias do "amor livre" que cercavam os personagens em 1986 criou um enorme conflito de gerações: Sebastién se afastou completamente do pai: se mudou de país e escolheu levar sua vida de maneira radicalmente diferente. E, curiosamente, sua esposa correta inicialmente lembra sua própria mãe, mas logo descobrimos uma diferença importantíssima: ela rejeita completamente a idéia do amor romântico, justamente pelo histórico de seus próprios pais.

E apesar do óbvio carinho e dedicação de Sebastién pelo pai, não deixa de ser curioso observar que quase todos os atos que promove para melhorar a situação são escusos: de alimentar o vício em heroína de Nathalie, passando por subornar o hospital e ex-alunos do pai para visitá-lo, tudo é discutível e reflete a maneira curiosa de como Arcand enxerga essa geração. Dito isso, devo dizer que um dos meus diálogos favoritos presentes no filme está na cena em que Sebastién e o policial trocam informações sobre suas especializações: de maneira sutil, descobrimos as reais intenções de ambos os personagens.

Sem exageros, considero o roteiro de As Invasões Bárbaras o melhor da década passada. Fora toda a perfeição temática, ainda há diálogos afiados, certeiros, superam O Declínio do Império Americano de longe, como quando Nathalie, depois de ouvir um ataque de nostalgia de Rémy responde que "Não é a sua vida atual que você quer deixar; é o passado. E esse já está morto". Ou o belíssimo raciocínio de um personagem sobre o fato da inteligência ser um fenômeno coletivo, e não individual. Se isso não fosse o bastante, a maneira como Arcand fecha sutilmente alguns arcos dramáticos na história é admirável: do momento em que a esposa de Rémy toca piano com a ex-amante do marido, passando pela curta participação de Alain Lussier que no filme anterior era jovem e idealista, e aqui surge como um intelectual dando sua opinião sobre o 11 de setembro (ou seja: tornou-se um deles).

O ato final é poderosíssimo: depois de conhecermos Rémy e como todos ao seu redor o amavam e o respeitavam, apesar de todos os pesares, chega a hora da despedida, conduzida com uma sensibilidade ímpar pelo diretor, dedicando um tempo precioso em tela para a despedida de cada um dos personagens. Isso sem falar no último desejo que Rémy revela a seu filho, uma das cenas mais comoventes que já vi, e que encerra o arco dramático dos dois de maneira poderosa, inesquecível.

Facilmente, As Invasões Bárbaras não foi só um dos melhores filmes da década passada: foi também um dos filmes mais representativos de uma época confusa e repleta de transtornos, que foi o pós-11 de setembro, quando o mundo sentia o peso do início de uma nova guerra que marcou essa nova geração... exatamente como a geração de O Declínio do Império Americano, que ficou marcada pela contra-cultura que cresceu com a guerra do Vietnã.

Às vezes, chamar de genial é pouco.

NOTA: 10

3 comentários:

annastesia disse...

Denys Arcand se superou dessa vez, não é mesmo? Magnífico!

Anônimo disse...

As invasões bárbaras é um filme debilóide, raro e medíocre. comparar com o Poderoso chefão é criancice. Quanto lixo, meu caro.
Abços
R. Augusto

Tiago Lipka disse...

Ok R. Augusto. Abraço para sua mãe.

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