Apocalypse Now Redux


Tinha absolutamente tudo para dar errado: o diretor perdido em drogas, o roteiro sendo alterado todos os dias numa filmagem que deveria durar alguns meses, e acabou durando dois anos, atores com egos infladíssimos num set construído num país que ainda entrou em guerra durante a produção. Acabou saindo uma obra-prima inigualável. É impossível que saia um filme sobre a guerra que seja tão poderoso quanto Apocalypse Now Redux, a versão com uma hora a mais do clássico de Francis Ford Coppola. Mesmo Guerra ao Terror ou Além da Linha Vermelha (o fabuloso filme de Terrence Mallick que chegou mais perto deste) ficam a ver navios. A jornada de Willard através de um barco até o templo de Kurtz é inesquecível, apocalíptica, perfeita. E fica sempre melhor quando revista.

A abertura é arrasadora: enquanto ouvimos The End do The Doors em versos que dizem "Meu único amigo é o fim" ou "Todas as crianças ficaram loucas" vemos um bombardeio, ouvimos sons de helicópteros, e descobrimos que na verdade, estamos dentro de um pequeno quarto de hotel com Willard, aguardando ansioso pela sua próxima missão. "Quando eu estava lá, só pensava em sair. Agora que estou aqui, só consigo pensar em voltar". Não demora para que sua missão finalmente apareça: ele é convocado pelo Serviço Secreto para terminar com o comando de um coronel que enlouqueceu e criou um exército particular nas selvas do Camboja. Ele pega uma carona em um barco para atravessar o rio enquanto conhece aos poucos o seu antagonista: coronel Kurtz.

Logo em sua primeira participação no filme, Kurtz já intriga. Ouvimos apenas sua voz, enquanto todos ficam paralisados e tensos ouvindo seu poema. Militar de carreira exemplar, acabou surpreendendo o exército quando resolveu voltar ao treinamento de fuzileiros. Depois de voltar ao Vietnã, começou a combater a guerra sem autorização do exército, ordenando capturas e execuções. "Como acusar alguém de assassinato em meio a guerra?". Essa é a pergunta que guiará toda a jornada de Willard que, quanto mais descobre informações sobre Kurtz, mais se descobre admirado com sua figura, e apavorado com sua missão.

Martin Sheen tem a atuação de sua carreira como Willard. Extremamente pressionado por Coppola, o ator teve um colapso nervoso durante as filmagens. Para o bem ou para o mal, sua tensão constante, combina perfeitamente com os sentimentos contraditórios que surgem no personagem. Enquanto Robert Duvall faz um trabalho soberbo como o coronel que bombardeia toda uma área dominada pelos vietnamitas com o objetivo inacreditável de poder surfar naquela área ("Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã"). Dennis Hopper completamente chapado rouba a cena como o fotógrafo que idolatra Kurtz (Hopper sumiu no meio das filmagens, e foi encontrado pela equipe lutando contra animais invisíveis no meio da selva).

Mas Apocalypse Now é Marlon Brando como o coronel Kurtz. Se a construção de seu personagem durante a narrativa é exemplar, o momento em que o vemos pela primeira vez é inacreditável, nos lembra porque amamos o cinema. Enquanto lava a cabeça em meio a sombras, ele pergunta a Willard:

 - Você é um assassino?

 - Sou um soldado, senhor.

 - Nenhum dos dois. Você é um garoto de recados, enviado pelos quitandeiros, para cobrar uma conta.

Brando apareceu nas filmagens obeso, para desespero de Coppola, e reescrevendo todos os seus diálogos. A combinação da obsessão do ator na construção do personagem com as tentativas de Coppola de esconder a forma física do ator, sempre o colocando em sombras, se somaram para a criação de uma das figuras mais assustadoras e fabulosas já vistas no cinema. A união desses dois gênios, pode não ter sido amistosa, mas foi mais do que perfeita.

A constante tensão e as desavenças na produção acabou colaborando para que Apocalypse Now se tornasse uma obra-prima. Mesmo cenas pequenas, como o momento em que o Chef se depara com um tigre se mostra fantástico: o que deveria ser um alívio cômico, ganha um tom desesperador. E portanto, o que dizer da cena em que Willard procura o comandante numa ponte que está sendo atacada, ou o ataque dos helicópteros a um pequeno vlarejo (na minha opinião, a cena mais bem montada de todos os tempos, cortesia do gênio Walter Murch)?

A grande diferença entre a versão original e a Redux é o que acontece entre o Vietnã e a chegada ao  Camboja, onde encontram Kurtz. A cena adicional em que os soldados visitam a casa dos franceses é uma introdução absolutamente perfeita para o climax horripilante. É claro que o original funciona (senão, não se tornaria o clássico que se tornou), mas fica difícil não admirar ainda mais a versão estendida, que trabalha ainda melhor o clima do filme.

Apocalypse Now aparentemente planejava ser um filme sobre a natureza contradiória do ser humano, o conflito de sermos parte animais e parte Deus. É sobre isso, mas é também muito mais sobre a loucura, e o caos da guerra, e como ele se reflete nos combatentes: Willard quebrando o espelho, ou o tenebroso monólogo de Kurtz sobre a vacina contra a poliomelite e suas consequências inacreditáveis. Muitos enxergam uma metáfora sobre o fim da "geração paz e amor" com a guerra do Vietnã, mas o desfecho do filme "sofre" justamente do otimismo dessa geração (não é a toa que Lance, o surfista loucaço, e o mais distante mentalmente da batalha seja o único a sobreviver junto com Willard).

E para fechar a perfeição de Apocalypse Now, as últimas palavras de Kurtz ainda trazem o que é a descrição mais sucinta, complexa e perfeita sobre a guerra:

 - O horror.... o horror... o horror...

NOTA: 10

4 comentários:

Kelvelyn disse...

Nunca assisti a versão estendida.

Mas Apocalypse Now ao lado de Taxi Driver,O Poderoso Chefão,Cidade dos Sonhos e Volver está entre meus favoritos.

Que história,que cenas,que personagens,que triha...filmes assim merecem ser chamados de obra-prima.

Luana Rocha disse...

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BigBangCinema disse...

Ótimo texto, impossível definição melhor.
"I love the smell of napalm in the morning..."
Cara sou de Curitiba também... eu tenho um blog de cinema/ música(www.bigbangcinema.com) gostaria de saber se você tem interesse em parceria por troca de banners.
Meu email: eroshenriquepacheco@hotmail.com

Andrea Pérez Ulloa disse...

Apocalypse Now é um grande filme, especialmente porque é uma questão de guerra, além de ser baseado em um livro. Devemos levar em conta os atores que aparecem houve relevante, por exemplo Robert Duvall, que passou toda a sua vida desempenho por diferentes funções dentro da indústria cinematográfica.

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