127 Horas


Fazer um filme que se passa todo em uma só locação é uma tarefa complicadíssima. Além da óbvia limitação cenográfica, automaticamente a qualidade do roteiro e das atuações deve ser capaz de sustentar o filme em si, além de ser um teste complicado para o diretor. Mesmo assim, já foram feitos ótimos trabalhos dessa forma: A Morte e a Donzela de PolanskiO Quarto do Pânico e Enterrado Vivo são exemplos perfeitos disso. 

E chegamos a 127 Horas

O filme mostra a terrível situação em que Aron Ralston ficou em maio de 2003 em meio a montanhas isoladas: seu braço ficou preso junto a uma enorme rocha. Sem conseguir se mover, e completamente sozinho, a única solução foi cortar o próprio braço. 

As dificuldades para o projeto eram óbvias. Mas é curioso observar no que aconteceu no meio disso. Danny Boyle é um diretor frenético, e mesmo que não tenha o mesmo pique de Cova Rasa e Trainspotting, ainda é capaz de criar obras fabulosas como Extermínio e Sunshine - Alerta Solar (este, antes do final escroto), e é uma pena que tenha sido reconhecido pela Academia com seu pior trabalho, Quem Quer Ser Um Milionário?, que junto com o também terrível Por Uma Vida Menos Ordinária e o fraco A Praia mostraram que quando Boyle bota fôlego demais em uma história fraca, o resultado é constrangedor.

Porque digo isso? Porque 127 Horas quase se une a estes exemplos constrangedores. Sempre que Boyle abusa da criatividade, o filme se enfraquece: da cena em que Aron imita um talk show, até seus delírios no terceiro ato, passando pela pior cena que o diretor já concebeu (a tempestade, cuja idéia é boa, mas deveria ter acabado antes), o filme só sobrevive e impressiona quando não usa nada disso. O desespero inicial de Aron e seu alívio quando a luz do sol finalmente chega ao ponto onde está são momentos muito mais simples, e muito mais funcionais. Fora que depois de um momento a vontade é dizer, "Ok, Danny Boyle, mostrou a água dentro do canudo e uma subjetiva da garrafa de água, será que pode contar a história agora, fazendo favor?". Além disso, a estrutura do roteiro enche linguiça com flashbacks que nunca dizem a que vieram, além de abusarem de diálogos expositivos que pioram quando percebemos que são MONÓLOGOS. 

O que salva o filme é a atuação corajosa de James Franco, que impressiona tanto pela debilitação física gradual do personagem, quanto pelo auto-controle forçado que ele se exige em momentos tocantes. A direção de arte merece elogios pelo nível de atenção aos detalhes (como a mancha de sangue secando na rocha), e a fotografia, feita por dois profissionais, é também fabulosa.

Uma pena que, no final das contas, Boyle não tenha confiado o suficiente na história, abusando de invencionices para fazê-la funcionar. Acabou errando a mão feio. Difícil é saber se foi excesso ou falta de criatividade. A sorte dele, é que o resto da equipe mandou bem, e a história era difícil de estragar.

NOTA: 8

2 comentários:

Rafael W. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael W. disse...

Concordo. O estilo de direção do Boyle atrapalha um pouco, é como se o filme não fosse pra ele. Entretanto, a história possui força suficiente pra fisgar o espectador logo de cara, sem falar na fabulosa atuação do James Franco, que transforma cenas que poderia soar risíveis (como a do talk show), em momentos palpáveis. A edição também é espetacular, e impede o filme de se tornar cansativo.

Enfim, eu adorei, achei um filmaço, mesmo com a mão pesada do Boyle.

PS: fiz força pra olhar a cena da amputação, doeu em mim.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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