Sob o Domínio do Medo


"Jesus... eu peguei todos eles..."

Assistindo Sob o Domínio do Medo é perfeitamente possível ver o quanto Sam Peckinpah influenciou no cinema. De Clint Eastwood a David Cronenberg, passando por Quentin Tarantino, Martin Scorsese e muitos outros, o cinema de Peckinpah era coisa de mestre, destes que as cenas nunca irão te deixar. O diretor é muito lembrado pela maneira crua de como encarava a violência, e este filme é também lembrado por isso, mas o roteiro escrito pelo diretor e David Zelag Goodman prima por um cuidado fascinante para não deixar claro que nenhuma ação que ocorre é a toa.

David e Amy Summer são um jovem casal que decidem sair dos Estados Unidos e morar no interior da Inglaterra, na antiga fazendo do pai dela. O principal motivo da viagem é escapar da violência social (e até psicológica) que havia no país por uma vida mais tranquila. Mas os trabalhadores que estão reformando a garagem deles (e antigos conhecidos de Amy) começam um jogo psicológico sinistro, que logo toma formas violentas.

É claro que o filme podia se limitar a mostrar que a violência nos segue por onde quer que vamos, não importa se estamos numa grande metrópole ou no interior; somos humanos, e isso já basta. Mas Sob o Domínio do Medo vai muito além. Uma das cenas mais discutidas, por exemplo, é o estupro-não-tão-estupro-que-acaba-virando-estupro. Logo no início, Amy vai tomar banho, e propositalmente deixa os trabalhadores a observarem nua por um curto período de tempo. O que pode parecer uma cena machista, esconde um aspecto fascinante da personagem: ao voltar para a casa onde passou a adolescência, ela logo passa a adquirir inconscientemente características de uma adolescente: reparem em como ela masca chicletes, como atrapalha o trabalho do marido e assim adiante. Logo, sua provocação para os trabalhadores parece uma tentativa até inocente de impressionar os "garotos da cidade" (não que isso justifique um estupro, afinal NADA justifica um estupro, deixando bem claro). Além disso, o terceiro ato ainda subverte a história de maneira quase sádica, e o filme ganha contornos ainda mais fascinantes, que não me atrevo a revelar. 

Sam Peckinpah demonstra seu invejável controle sobre a narrativa, criando cenas inesquecíveis e eficazes, com destaque a festa que ocorre na Igreja, em que o diretor cria uma tensão insuportável através de detalhes inusitados, como a brincadeira de algumas crianças e um sermão do padre. Isso sem falar no já citado ato final, cena tão bem orquestrada e conduzida que fica impossível destacar um momento. Beneficiado ainda de atuações brilhantes de todo o elenco, o destaque obviamente vai para Dustin Hoffman, embora Susan George e Peter Vaughan roubem a cena em diversos momentos.

Contando com um roteiro inteligente e inspirado, Sob o Domínio do Medo é um estudo eficaz e complexo sobre a violência social que, injustamente, as vezes é tratado exatamente ao contrário. E como não admirar um filme que mostra um homem perguntando para o outro se ele já participou ativamente de um ato de violência ouve a resposta: "apenas entre um comercial e outro".

NOTA: 10

1 comentários:

annastesia disse...

Filme fantástico e tenso de Peckinpah, que aliás era uma figura!

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