Ondas do Destino


Apesar de já ser reconhecido pelo seu trabalho anterior, só depois de Ondas do Destino que Lars von Trier foi devidamente consagrado. E apesar do filme lembrar muito em temática Dogville, Dançando no Escuro e até Anticristo, o fato é que neste trabalho há um otimismo e positividade que aos poucos começaria a desaparecer do trabalho do diretor.

Ondas do Destino conta a história de Bess, uma mulher solitária que mora com os pais numa pequena cidade da Escócia, onde impera o machismo e a religiosidade (bem misturados, inclusive). Ela então se casa com Jan, um dinamarquês que trabalha numa plataforma de petróleo, algo que o deixa muito tempo longe de casa. Depois de um grave acidente, Jan fica paralítico, e Bess mergulha em culpa, acreditando que seu desejo de ter o marido de volta foi a causa de tudo. Jan então começa a pedir a Bess que se relacione com outros homens e lhe conte a experiência, como forma de se manter íntimo da esposa.

Bess e Jan, aliás, são provavelmente a criação mais romântica de von Trier, e os atores dão um verdadeiro espetáculo: Emily Watson faz uma interpretação corajosa e brilhante, escapando de várias "armadilhas" que o diretor colocou na personagem, como a sua tendência de responder como Deus em suas orações, algo que se torna cômico e trágico ao mesmo tempo (e só o momento em que ela não consegue ouvir a resposta de "Deus" já deveria render todos os prêmios do mundo para Watson), enquanto Stellan Skarsgard atua com uma energia contagiante no início, fazendo de Jan uma figura forte e carismática, o que obviamente, irá contrastar fortemente com a amargura e paralisia que seguirá. Mas o que é realmente brilhante é como o ator consegue fazer seus pedidos desprezíveis para a esposa parecerem naturais.

Mas é claro que o diretor trabalha muito mais com o que está a volta dos personagens, e o personagem do médico que se aproxima de Bess, ou a sua irmã se tornam figuras mais do que surpreendentes. Além disso, só a lógica perversa que von Trier coloca para mostrar a obediência cega dela para com as fantasias de Jan já serve como uma crítica social inteligentíssima do diretor para com as religiões.

Contando com um final... belíssimo e simbólico, Ondas do Destino é um filme de personalidade forte e fascinante. E basta assistí-lo junto com Dogville e Dançando no Escuro para saber que as acusações de "antifeminismo" que o diretor recebeu em Anticristo são umas completas besteiras.

NOTA: 10

3 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Depois de Dogville, esse é o meu filme preferido do Von Trier, contundente e triste, com uma protagonista errante das mais incríveis de um filme dele. A Watson tem uma atuação devastadora!

James Lee disse...

Da filmografia do diretor o meu favorito até agora é "Dançando no escuro". Não conhecia este longa e claro, fiquei completmente curioso em relação a fita. Vou procurar vero mais rápido possível!

abraços.
www.sebosaukerl.blogspot.com

annastesia disse...

Não sou muito fã de Lars Von Trier e na minha distorcida opinião, esse e Dogville são os seus melhores filmes. Já sei que os adoradores de Anticristo e Dançando no escuro vão querer me apedrejar ou me queimar na fogueira. Witch! Witch!

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