Não Estou Lá


Inspirado na música e nas muitas vidas de Bob Dylan, Não Estou Lá é a cinebiografia mais eficiente e original já lançada sobre um músico. Aliás, tão eficiente e original que faz outras parecerem ruins em comparação. Coube ao diretor Todd Haynes, dos excelentes Velvet Goldmine e Longe do Paraíso levar as telas a vida de um músico  com tantas fases diferentes em sua carreira, marcada por letras enigmáticas, complexas e sempre brilhantes e uma voz que parecia desdenhar da música em si.

Escrito pelo diretor em parceria com Oren Moverman (que realizou o fabuloso O Mensageiro), Não Estou Lá conta a história de Dylan criando várias personas diferentes para cada fase de sua vida: Marcus Carl Franklin faz seu contato com o blues e a música negra, e o início de sua carreira; Christian Bale, a fase folk na qual foi consagrado e a pouco conhecida fase religiosa; Heath Ledger, sua vida familiar arruinada pelo estrelato; Cate Blanchett, a fase elétrica que assustou público e crítica; Ben Whishaw, o lado poeta do cantor e Richard Gere mostra o recluso que Dylan se tornou depois do acidente de moto que mudou sua vida.

O filme pode parecer bagunçado, mas esconde uma estrutura narrativa perfeita, que consegue não apenas narrar a história de Dylan, como tecer comentários contundentes sobre sua música e a época, como demonstra a sequência que envolve Ballad of a Thin Man, que não apenas desvenda a forte crítica ao jornalismo e aos intelectuais que traz em sua letra, como ainda mostra como a canção acabou sendo usada politicamente pelos Panteras Negras. Além disso, o clima surreal da obra cria cenas de complexidade e beleza inquestionável, como o fabuloso momento em que vemos Marcus Carl Franklin engolido por uma baleia, apenas para descobrirmos que era uma imagem de um sonho da esposa de Heath Ledger (ou seja, a esposa sentindo que a pureza da arte do marido se perdeu - e talvez por sua culpa).

A fotografia do filme, realizada por Edward Lachman ainda vai ser lembrada como uma das mais subestimadas dos últimos anos, dando uma lógica visual perfeita a cada história, algo perfeitamente salientado pela montagem de Jay Rabinowitz (cujo currículo inclui Réquiem Para um Sonho), e pela direção de Haynes: se as cenas de Cate Blanchett demonstram uma clara influência de Fellini 8 e Meio, as de Christian Bale parecem tiradas de algum documentário musical dos anos 60.

Mas é impossível não escrever sobre Não Estou Lá e também não comentar sobre sua trilha sonora, corajosa já que não se limita a tocar Bob Dylan: as diversas versões tocadas demonstram um cuidado soberbo nos arranjos, como demonstra a citada Ballad of a Thin Man cantada por Stephen Malkmus, All Along the Watchtower por Eddie Vedder ou (minha favorita) Goin' to Acapulco numa versão arrasadora da banda Calexico.

Assista o filme, ouça a trilha sonora. E aproveite, e ouça e leia tudo que Bob Dylan fez em sua vida. Vai valer a pena.

NOTA: 10

PS: Eu não acredito que seja necessário conhecer a vida de Bob Dylan para entender este filme, mas caso prefira, assista o documentário também fabuloso sobre ele dirigido por Martin Scorsese, chamado No Direction Home.

1 comentários:

Mariane Carolina disse...

Eu Gostei muito de não estou lá *-* E é bom mesmo assistir a no direction home, entende melhor, até porque o filme é meio complexo, mas muito bem feito haha

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