Inverno da Alma


Talvez seja o filme norte-americano mais parecido com a obra do cineasta brasileiro Cláudio de Assis. Tematicamente, Inverno da Alma lembra muito Amarelo Manga e Baixio das Bestas, mas sem os seus excessos visuais. A diretora Debra Granik usa a jornada da adolescente Ree para encontrar seu pai para mostrar uma região em que a pobreza faz florescer o pior da natureza humana.

Ree mora sozinha em casa com dois irmãos mais novos e sua mãe doente, que pouco fala ou se locomove. Seu pai trabalha com drogas e está foragido. As drogas, aliás, são parte do negócio da família. Ree é informada pelo delegado de que seu pai deu o terreno e a casa onde moram para pagar a fiança. Se não comparecer ao julgamento, ela, seus irmãos e sua mãe ficarão sem ter onde morar. Sem pensar duas vezes, a garota decide procurar o pai.

E é aí que começa o que se tornará uma viagem emocionalmente infernal. A família não parece nem um pouco interessada em ajudá-la a achar seu pai, e aconselha a garota a ficar em casa e esperar. Quando ela desobedece começa a sofrer as consequências, violentíssimas. O machismo do local se torna evidente. Não é a busca em si que incomoda; é o fato de ser uma garota questionando. 

Jennifer Lawrence como a protagonista talvez seja a grande revelação do momento. Sua atuação é um retrato fabuloso; o cansaço, a frustração e a dedicação estão o tempo todo em seu olhar, em sua linguagem corporal. E tudo isso sem excessos. Além dela, John Hawkes que interpreta Teardrop, seu tio, faz a figura mais complexa e trágica do filme. Seu desfecho é absurdamente emocionante. Duas interpretações memoráveis, brilhantes, que retratam com perfeição a jornada angustiante que o filme proporciona. A cenografia, repleta de pastos sem vida e vegetação seca ajudam a dar o tom da história.

O desfecho de Inverno da Alma é complexíssimo. Por um lado, resolve de maneira satisfatória a trama, e até causa algum alívio no público. Alívio este, que vai embora assim que repensamos sobre o último diálogo do filme, uma frase de duplo sentido que acaba revelando muito não apenas sobre a relação sobre os personagens em cena, mas também sobre seu futuro. Visto por esse lado, e sem exageros, talvez seja um dos desfechos mais complexos e belos dos últimos anos.

NOTA: 10

3 comentários:

LuEs disse...

E aí, cara, tudo bem?

Olha, eu assisti a esse filme ontem e realmente não tive a mesma perspectiva que você, afinal, a sua nota foi consideravelmente mais alta do que a minha! Enquanto você deu nota máxima, a minha nota nem chegou a 7.

Acredito que no filme haja características muito boas, como, por exemplo, o excelente senso da diretora, que soube como captar tudo sem exageros eapenas se ocupou apenas em retratar uma história com o máximo de veracidade. Podemos ver isso em muitas cenas, o simples conhecimento de onde Ree mora é chocante para o espectador. As atuações de Jennife Lawrence e John Hawkes são mesmo boas, mas apenas as considerei notáveis por causa da baixa qualidade nas atuações dos filmes do momento. Aliás, eu nem sequer considero "memoráveis" as interpretações dele, mas, para o momento da filmagem, é inquestionável que eles estavam notoriamente corretos.

Mas penso que o problema do filme se encontra no seu ritmo e na sua história, nem sempre muito clara. São detalhes demais em função de uma narrativa lenta, que, por conseguinte, dispersou a minha atenção, fazendo com que eu não reparasse neles detalhes.

Gostei do seu blog, vou acompanhá-lo.
;D

VIRGINIA disse...

Eu assiti esse filme onteme nunca sai tão inconformada de um cinema,acho que eu sou um ser inferior porque nao percebi essa magnitude do filme.
Simplesmente achei chato,um roteiro sem nexo e a atuação da Jnenifer nao tem nada demais, ela até pode ser uma revelação mas espero que ela mostre o talento dela realmente em outro filme

Grande decepção

Ritter Fan disse...

Excelente crítica, mas discordo frontalmente dela. O roteiro desse filme é uma das coisas mais mal feitas que vi recentementa. A garota é uma super-heroína sem falhas e o desenrolar do filme não faz sentido algum, soando forçado e anti-natural. Mas a atuação de Jennifer Lawrence é incrível.

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