Era Uma Vez no Oeste


O Spagghetti Western representou uma importante fase do cinema italiano que, na busca de homenagear os faroestes americanos se consagrou como uma evolução natural do gênero. Junto com Três Homens em Conflito, este Era Uma Vez no Oeste é uma de suas obras-primas, e ambos do genial diretor Sergio Leone. Não tem o mesmo peso de Meu Ódio Será Sua Herança ou Rastros do Ódio, por exemplo, até porque os filmes do gênero buscavam ser muito mais homenagens as grandes obras do gênero, algo parecido com o que Tarantino ou Robert Rodriguez fazem hoje. O som dos disparos das armas, por exemplo, lembram o de filmes muito mais antigos. Mas seus méritos são mais do que inegáveis.

Charles Bronson interpreta "Harmonica", um pistoleiro que busca um encontro com o perigoso Frank (Henry Fonda), por razões que não são claras. No meio do caminho dos dois entram Cheyenne (Jason Robards), outro fora-da-lei que é acusado pelo massacre de uma família, na verdade cometido por Frank, e Jill (Claudia Cardinale), esposa do pai da família massacrada que chega a cidade justamente no dia do crime.

A trama é simples, e em suas quase três horas de duração há muito pouco diálogo: Leone fez um épico silencioso, inquieto, confiando muito mais na direção de cena, nos atores, nos cenários, etc. Acertou em cheio. A vida de qualquer um que queira trabalhar com cinema vai mudar logo na abertura, com três matadores esperando sua vítima chegar de trem. Uma aula de som, edição e fotografia: assistir Era Uma Vez no Oeste vale por uns seis meses de uma faculdade de cinema.

O roteiro econômico traz diálogos sempre inspirados e geniais. Por exemplo quando Harmonica pergunta se os três matadores trouxeram um cavalo para ele, quando trouxeram apenas três cavalos. Um deles responde "Parece que trouxemos um cavalo a menos". A resposta "Não, vocês trouxeram dois cavalos a mais". Ou a descrição de Cheyenne sobre a vida dos foras-da-lei: "Pessoas assim tem algo dentro delas. Tem algo a ver com morte". Essa fala, aliás, resume mais do que bem o clima do filme. 

Leone fez um épico sobre personagens que andam sempre lado a lado com a morte. Logo no início, um dos matadores se diverte ouvindo uma mosca presa no cano do revólver; Cheyenne parece quase suicida: faz de qualquer ação comum um motivo de enorme tensão (veja seu ritual para se livrar das algemas). Aliás, Jason Robards (mais conhecido pela sua atuação como Earl Partridge em Magnólia) tem uma performance brilhante como Cheyenne, empatando com a interpretação intensa e assustadora de Henry Fonda. Claudia Cardinale tem os diálogos mais fracos, e exagera no tom de voz, mas é linda e tem uma presença de tela assustadora: funciona bem. Charles Bronson mostra aqui o ator que poderia ter sido. Econômico, aposta no mistério do personagem, desenvolvendo uma química curiosíssima com Robards (imaginamos os dois como amigos desde a primeira cena, mesmo que nunca troquem duas palavras amigáveis). Pena que tenha se tornado uma caricatura grotesca, principalmente graças as continuações de Desejo de Matar.

Contando com uma das trilhas sonoras mais fabulosas e aclamadas já compostas por Ennio Morricone, Era Uma Vez no Oeste é um clássico obrigatório, quase um milagre cinematográfico: poucas vezes um filme conseguiu unir todos os seus elementos de forma tão impactante.

John Ford e cia. devem ter ficado muito orgulhosos.

NOTA: 10

1 comentários:

João Marcos Flores disse...

Cara, a voz que você ouve no filme não é da Claudia Cardinale, e sim de uma dubladora - algo que acontecia em todos os filmes americanos da atriz, que não conseguia perder o sotaque italiano e não falava um inglês muito bom.

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