Além da Vida


Dizer que Além da Vida é tudo o que Chico Xavier, Nosso Lar ou o recente Aparecida - O Milagre tentaram ser é uma grande injustiça pelo que os diferencia: o novo filme de Clint Eastwood  e roteirizado por Peter Morgan está longe de querer converter alguém para uma religião ou outra. Apesar de debater o tema da vida após a morte, não há qualquer discussão religiosa. Curiosamente, aliás, a única cena que se passa numa igreja mostra um padre de insensibilidade ímpar, enquanto o único personagem que manifesta alguma preferência religiosa se diz ateu.

Além da Vida contra três histórias paralelas: Marie é uma repórter francesa que acaba vítima de uma tsunami; depois de se afogar tem uma visão, que passa a acreditar ser uma experiência fora do corpo. Marcus é um jovem que sofre com a dependência química da mãe, e passa a tentar se comunicar com o irmão gêmeo recém falecido. E George, um vidente que desiste de seu dom, graças a impossibilidade de uma vida seguindo nesta carreira.

O roteiro de Peter Morgan é intrigante e inteligente, preferindo sempre o diálogo factual: quando George fala para uma garota o seu dom, por exemplo, ele procura termos científicos e até uma razão racional para explicar. São momentos assim que colaboram para que confiemos tanto no que o filme está dizendo, quanto no dom do personagem. Mas o roteiro também apresenta um problema no segundo ato, quando a história de Marie se torna muito mais fraca e desinteressante do que o resto, algo que nem a boa atuação de Cécile de France consegue contornar.

Ao mesmo tempo, George e Frankie McLaren fazem um ótimo trabalho como os irmãos Marcus e Jason (aparentemente, eles revezaram os papéis). Mas Além da Vida deve muito a Matt Damon, que faz de George, um personagem dificílimo com um talento extraordinário algo notado logo no início, quando se recusa a contatar a filha falecida de uma mulher que oferece todo o dinheiro que tem por algumas palavras da filha: ao mesmo tempo em que lamentamos a atitude de George, entendemos perfeitamente seus motivos. Além disso, é em sua trama que o filme apresenta o que tem de mais intrigante, e a sua relação com a personagem de Bryce Dallas Howard (em sua melhor atuação) resume perfeitamente o drama do protagonista.

No final das contas, Além da Vida não é um filme genial, mas é intrigante e inteligente e conduzido com talento por Eastwood, que se recupera bem da bomba que foi Invictus. O filme está sendo vendido como um filme sobre a morte ou coisas assim. Besteira. A preocupação do diretor é claramente com os personagens e nada mais.

E, do jeito que anda o cinema, o negócio é agradecer pela completa ausência de tentativas de nos converter a uma religião ou outra.

NOTA: 8,5

2 comentários:

Guilherme Huyer disse...

Nossa, dessa vez preciso discordar. Achei Além da Vida muito ruim. Melodramático e chato, não acontece basicamente nada em cena. Aliás, acho Invictus, ainda que problemático, melhor que Além da Vida. É o pior roteiro de Peter Morgan.

lematinee disse...

Bom saber que eu nao fui a unica que achava as partes de Maria LeLay mto chatas (com exceção do tsunami).

Gostei deste filme, embora a trlha fosse demasiada moribunda...

Abs

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