Spider - Desafie sua Mente


Acontece: às vezes nos apaixonamos por filmes, mesmo reconhecendo seus óbvios problemas. Dito isso, eu tenho um caso de amor com Spider - Desafie sua Mente. Apesar de não ser meu filme favorito de David Cronenberg, e ter absoluta certeza de que o ritmo extremamente lento da montagem no terceiro ato certamente atrapalha a experiência proposta, é um filme que eu assisto frequentemente. Talvez o filme que mais vezes revi de Cronenberg.

Mas há, claro, várias razões para isso. Spider acompanha seu protagonista, Dennis 'Spider' Cleg (Ralph Fiennes) a partir do momento em que sai do manicômio, numa cena fabulosa: na saída do trem, acompanhamos vários figurantes saindo, conversando, enquanto ele fica para trás, desnorteado a passos lentos. De maneira econômica, o filme já nos mostra um personagem completamente fora do fluxo do dia a dia. A partir dali, veremos tudo a partir do olhar de Spider, que aproveita sua estadia num hotel para investigar seu passado, e a trágica história de sua infância com seu pai e sua mãe.

Esquizofrênico, e demonstrando um óbvio Complexo de Édipo, Spider guarda todas as informações num diário, escrito de maneira que apenas ele entende, e suas memórias estão sempre misturadas com delírios, algo que fica claro logo em um dos primeiros flashbacks: ao chamar seu pai para jantar em um bar, uma mulher acaba mostrando os seios para o garoto, que ao invés de ter uma reação sexual ao ocorrido, acaba misturando isso com uma fantasia maternal, e logo na próxima cena, a mesma personagem ganha o rosto de Miranda Richardson, que interpreta sua mãe. Lógicas fascinantes como essa, cercam todo o filme.

Ralph Fiennes faz um de seus melhores trabalhos em Spider. Com um olhar perdido e vazio e uma maneira curiosa de se comunicar (resmungando as palavras num tom infantil), o personagem é completamente atípico de ser um protagonista, mas o ator e o roteiro fazem um excelente trabalho nesse sentido. Miranda Richardson com a complicada tarefa de interpretar a mãe de Spider e outras personagens durante a narrativa faz um trabalho intrigante, ao compor cada uma das personagens de maneira distinta, mas misturando as características uma das outras conforme a narrativa avança, enquanto Gabriel Byrne ganha uma tarefa ainda mais complicada: o pai de Spider é visto sempre como uma fantasia errônea, e há apenas dois momentos no filme que realmente parecem trazer o personagem em carne e osso, como deveria ter sido. Mas, de alguma forma, o ator consegue fazer uma composição homogênea e completa, sem parecer um personagem abstrato, como corria o sério risco de ser.

Minimalista desde a parte visual até a trilha sonora brilhante de Howard Shore, Spider - Desafie sua Mente é um filme lento desde o início, mas é fundamental que o seja (como a primeira cena já anuncia). Infelizmente, o ritmo cai muito perto de seu desfecho, e se torna cansativo, o que torna o final um pouco decepcionante para alguns, e com razão.

Mas, por acreditar que o desfecho, na verdade, não responde nada, e sim que é mais uma camada da complexa história, não posso esconder minha enorme admiração por este filme.

NOTA: 8,5

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