O Garoto de Liverpool


Mother é uma das músicas mais sinceras e dolorosas da história da música, e só por ouvi-la, dá para saber que a infância de John Lennon não foi das melhores: abandonado pelo pai, foi deixado pela mãe na casa de uma tia com 5 anos, e só voltou a vê-lo quando ele tinha 17. O Garoto de Liverpool começa com a reaproximação de John e sua mãe, para mostrar sua complicada vida familiar, e também a gênese do que se tornaria a maior banda de todos os tempos.

Aaron Johnson se destacou esse ano pela (fraca) interpretação em Kick-Ass, mas aqui mostra muito mais serviço, com uma atuação não apenas complexa, mas principalmente inteligente: o ator facilmente poderia se render ao mito que foi John Lennon, mas Aaron parece optar pelo mais difícil, apostando principalmente na arrogância do personagem, o que o torna muito mais real aos olhos do público. E além dele, a atuação de Thomas Sangster como Paul McCartney merece um destaque: apesar de não parecer fisicamente com ele, Sangster através dos trejeitos e da fala (e principalmente, pela maneira como toca no palco) faz  com que isso não seja um problema.

Mas o destaque verdadeiro do filme são as atuações de Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff: se a primeira faz a tia de John Lennon com uma frieza emocional impressionante e ainda assim consiga cativar, a segunda se torna uma personagem fabulosa e trágica; claramente tomada pela depressão, ela claramente concentra toda sua energia para agradar John, como se quisesse compensar toda a sua ausência em poucas horas, o que acaba atrapalhando seu relacionamento com suas duas outras filhas e marido, algo que o filme sugere com uma maturidade e sutileza exemplares.

Entre os poucos defeitos do filme estão alguns elementos estranhos na narrativa, como alguns momentos entre John e sua mãe que beiram ao incesto, o que poderia ser curioso, se não fosse logo esquecido (embora dê a sensação de ser um erro mesmo). Além disso, se a relação entre Lennon e McCartney é sempre lembrada pela rivalidade, aqui o filme dá uma certa exagerada: tentando sugerir uma relação de amor e ódio, o roteiro acaba errando no equilíbrio (embora, sendo justo: há uma cena brilhante entre os dois no final que quase compensa esse erro). E o roteiro, infelizmente, conta com alguns momentos inexplicavelmente forçados   que quase estragam ótimas cenas, como o momento em que Lennon diz "Porque Deus não me fez Elvis Presley?". A resposta é óbvia e piegas, ao contrário de quase todo o resto do filme. 

Contando com um desfecho perfeito, O Garoto de Liverpool é um drama corajoso sobre John Lennon, principalmente pela maneira direta em como lida com seu protagonista, afinal quando acerta acaba até soando como o que Diários de Motocicleta fez com Che Guevara

NOTA: 8,5

5 comentários:

Robson Saldanha disse...

Também senti esse momento incesto do filme, mas no geral concordo com tudo que falou. Um filme muito interessante, inclusive dei a mesma nota.

Rafael Moreira disse...

Olá Tiago. É a primeira vez que visito seu blog e devo dizer que gostei bastante. Sobre "O Garoto de Liverpool" eu estou muito curioso para ver já que tenho lido muitos elogios por aí. Abraço!

Pedro Henrique disse...

O filme sofre para criar um mínimo de intensidade entre os personagens. É uma esquizofrenia desmesurada.

lematinee disse...

Achei o filme quase uma novela a la Eramos Seis, mesmo assim gostei mto porque nao posso ver um drama que choro, rs...

O filme errou em varios aspectos na minha opniao, porem possuis partes com tamanha sensibilidade que é possivel nos cativarmos por ele.

Interessante vc ter tocado sobre a atuação de Thomas Sangster. Achei que ele conseguiu transmitir melhor o perfil de Paul, mais do que Aaron para John Lennon...

Te linkei la no bRog!

Abs!

Amanda disse...

Tiago, essa relação de quase "incesto" é normal para os fãs. Lennon com uma de suas muitas frases polêmicas chegou a dizer que sentia muito por não ter feito sexo com a mãe. Abraços, e sim é um ótimo filme.

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