Nó na Garganta



Fascinante, divertido e sombrio, Nó na Garganta é o melhor filme dirigido por Neil Jordan (embora Traídos pelo Desejo não fique muito atrás). Contando a história de Francie Brady, um garoto irlandês que exibindo um comportamento atípico e violento, se vê obrigado a tomar conta de sua casa depois do suicídio de sua mãe, já que seu pai alcoólatra há tempos parece ter desistido de viver. A única alegria do garoto é sua amizade com Joe, com quem se diverte desde brincadeiras inocentes até roubando Phillip, um garoto frágil e estudioso, cuja mãe, a sra. Nugent é vista como uma verdadeira inimiga por Francie.

Como outros filmes do diretor, o elenco está fabuloso, e Eammon Owens como o protagonista foi uma grande revelação (que infelizmente, acabou "não acontecendo"). Parceiro habitual do diretor, Stephen Rea faz um trabalho soberbo como o pai de Francie, tanto que se naturalmente por estarmos envolvidos com o garoto, naturalmente o desprezamos ainda mais, mas de alguma forma o ator consegue apresentar um lado sensível que toca o público. Brendan Gleeson como o padre que ajuda Francie em seu colégio empresta sua postura firme para um personagem que não demora para se tornar desprezível, enquanto Fiona Shaw acerta em cheio na composição da Sra. Nugent.

Utilizando desde a narração em off até cenas fantásticas para nos levar a entender o raciocínio de Francie, Jordan é tão bem sucedido na condução da narrativa que leva o público a perdoar naturalmente as ações do garoto, que incluem espancar um garoto com uma corrente de ferro logo no início. Sem qualquer medo de utilizar o humor também para isso, o diretor conseguiu fazer um filme de natureza contraditória: afinal, quantas vezes você imaginaria que daria risada em uma cena envolvendo um padre se masturbando ao lado de um garoto? E o que dizer da cena em que Francie quase destrói a casa da sra. Nugent (em que a narração sugere que o garoto acredita que está num programa de TV)?

E essa ambiguidade moral é mais do que perfeita para a lógica da história, já que o próprio Francie parece não enxergar a realidade dos atos que acontecem em sua volta. Quando testemunhamos uma briga violenta entre seu pai e sua mãe logo no início, por exemplo, o protagonista começa a reclamar do sono, obviamente ignorando o que ocorre em sua frente, e portanto, é mais do que intrigante que mais a frente, em uma conversa com o pai, Francie relembre com perfeição o diálogo que deu origem a briga.

Além disso, o filme não faz qualquer concessões para se tornar mais agradável, principalmente no terceiro ato quando um ato violentíssimo e inesperado toma conta da narrativa, transformando Nó na Garganta numa experiência ainda mais impressionante e perturbadora. Guardando um detalhe ainda mais intrigante em seu desfecho, o filme não é muito popular no Brasil pois foi lançado sem qualquer cuidado aqui, de maneira parecida com o ótimo Vidas em Jogo de David Fincher

Mas acredite: corra atrás dessa obra-prima que vai valer a pena.

NOTA: 10

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