Minhas Mães e Meu Pai


Acontece sempre em Hollywood de uma caquinha insignificante ser vendida como algo genial e, por mais incrível que pareça, conseguir arrancar indicações em premiações importantes. E mesmo que sempre aconteça, isso sempre me assusta. Nesse caso, Minhas Mães e Meu Pai é uma comédia água com açúcar, sem qualquer pingo de ousadia, mas está ganhando indicações importantes. E inexplicáveis.

Julianne Moore e Annette Bening fazem o casal com dois filhos, interpretados por Josh Hutcherson e Mia Wasikowska, que são pegas de surpresa quando descobrem que os dois conheceram o doador de esperma que deu origem a eles, o divertido personagem de Mark Ruffalo. Essa história, que tinha tudo para ser divertida, inspirada e (porque não?) discutir os tabus com que está lidando, deixa tudo de lado para fazer gracinhas, o que transforma os momentos mais dramáticos nos poucos momentos inspirados do filme.

Vejamos por exemplo o caso que Julianne Moore tem com Mark Ruffalo: a relação entre os dois é tão forçada e sem sentido, que até as cenas beiram o artificial (ah vá, os dois caminhando em direção um do outro dizendo que não podem se beijar, até se beijarem?). E o que dizer da trama que acompanha o filho mais novo e seu melhor amigo problemático, que é simplesmente esquecida pelo filme? 

O que salva Minhas Mães e Meu Pai são as atuações excelentes, principalmente a de Anette Bening, que interpreta a personagem mais difícil e, no final das contas, a mais dramaticamente rica. Julianne Moore e Mark Ruffalo acertam, principalmente ao investirem num tom mais leve e cômico, e Josh Hutcherson aproveita bem os poucos momentos em que se destaca. Já Mia Wasikowska merece um puxão de orelha: a atriz que se destacou na primeira temporada de In Treatment, e recentemente protagonizou Alice no País das Maravilhas parece, cada vez mais, ser muito limitada: basta notar que suas atuações nestes três trabalhos completamente diferentes entre si são praticamente iguais, um problema gravíssimo para uma atriz tão jovem.

Mas apesar dos pesares, o filme não é ruim. Só é certinho demais, bobo até. E o único acerto do roteiro é ter tiradas o suficiente para causar algumas risadas, o que já tá de bom tamanho para uma comédia qualquer, mas não para um filme indicado ao prêmio de Melhor Roteiro, como é o caso aqui.

NOTA: 5

3 comentários:

João Marcos Flores disse...

É curioso, mas acho a Mia o destaque interpretativo do filme. Assim como o drama de sua personagem, o da adolescente que projeta no novo 'pai' tudo o que sonha em um homem, o que soa mais natural.

Tiago Lipka disse...

A personagem tem um sub texto bom mesmo, concordo. Mas a guria tem o mesmo tom de voz, a mesma expressão, e tudo mais em outros personagens bem diferentes deste. Aí fica difícil...

Dave Coelho disse...

'Casquinha insignificante'
'Sem qualquer pingo de ousadia'
Amigo Lipka, você sabe que em geral os filmes abordam a questão da homossexualidade de forma muito parcial. Ou são personagens caricatos (os amigos gays, nas comédias) ou sujeitos confusos, com profundas falhas de caráter, personagens vitimizados.
Em The Kids.. o tema é tratado de forma natural, com verdade. E tão leve, que acaba nem sendo o ponto principal do filme, que é a família; o senso de proteção da instituição família.
Tocando os pontos que vc levanta no texto 1) O caso da Julianne Moore com o Ruffalo é completamente justificado no roteiro pelas falas da própria personagem (lembrar do diálogo sobre porn movies e DRs com a Annete). Existiu uma situação e foi algo extritamente carnal, por tanto.
2) A trama do filho foi resolvida a contento, houve um closing ali. Não foi negligenciada. Só era menos significante pro conjunto e não havia pq estender.
O personagem do Ruffalo vai muito além de apenas 'divertido'. Ele é um cara que se vê sozinho mesmo sendo 'pai' de dois filhos incríveis e que tenta entrar na vida daquela família pela janela, mas é impedido - claro.
Troque o casal lésbico por um hetero e o filme continua funcionando da mesma forma. Os sentimentos ali são tratados com muita autenticidade e leveza - com taças de vinho e Joni Mitchel na trilha.
E filmes feitos com verdade merecem reconhecimento e premiações, sim.
Pare de ver filmes quando estiver caindo de sono.
Sinceramente,
Dave Coelho.

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