Homens em Fúria


Quando Homens em Fúria terminou no cinema em que assisti, grande parte do público se mostrou completamente revoltada com o desfecho do filme, enquanto a outra parte, assim como eu, permaneceram atônitos e nervosos nas cadeiras, tamanho o peso da história. Drama maduro e completamente despreocupado em dar respostas fáceis para o complexo drama de seus personagens, Homens em Fúria é um filme raro, destes que merecem ser apreciados.

Dirigido por John Curran, do bom Tentação e do excelente O Despertar de uma Paixão, o filme acompanha Jack (Robert DeNiro), um agente de condicional que casado por várias décadas, finalmente aproxima-se de sua aposentadoria. Um de seus últimos trabalhos é um criminoso folgado e de fala mansa, Stone (Edward Norton) que, desesperado para sair, ainda pede que sua mulher se aproxime de Jack fora da prisão para convencê-lo a ajudar. Mas o envolvimento entre a mulher de Stone e Jack acaba alterando completamente a já complicada relação entre os personagens.

E se o filme parece se anunciar como um drama com triângulo amoroso, em que cada ponta manipula a outra, não demora para que Homens em Fúria se revele muito mais. A chave de tudo está na história de Jack, que inclui um incidente psicologicamente violentíssimo entre ele e a esposa. Jack é um personagem trágico, e todo personagem deseja alguma coisa: isso é dramaturgia. Vamos ao cinema ver personagens superando obstáculos para realizarem seus objetivos. Mas o que se esconde nas várias citações religiosas no filme guarda algo que não apenas justificará o seu final aberto (e completamente seco), como ainda se mostrará uma das experiências dramáticas mais extenuantes dos últimos anos.

Beneficiado ainda por uma trilha sonora inquieta e perfeita, e atuações fortes de DeNiro e Norton, (além de uma surpreendente Milla Jovovich), talvez a melhor maneira de "compreender" Homens em Fúria seja acompanhar o arco dramático interpretado por Frances Conroy como a esposa de Jack. Dona de um sofrimento tão grande, que chega a ser impossível simplesmente olhar para ela sem ter uma forte reação, é justamente na dúvida de uma ação que ela pode ou não ter cometido que está o que há de mais genial e trágico no filme.

NOTA: 8,5

2 comentários:

Mariana Oliveira disse...

Cara, sério que você gostou desse filme?? Eu também saí atônita da sala do cinema, mas atônita de realmente ter pagado pra ver isso... Ok, concordo que tem sim uma mensagem profunda quanto ao drama de cada personagem, mas acho foi justamente isso que me revoltou...Me senti assistindo uma novela, onde a solução de um problema é simples, mas como ainda restam 4 meses de novela o diretor tem que enrolar o público, tornando um problema muito mais dramático do que realmente seria.
Também entendo que sim, é um estudo profundo sobre a mente humana. Mas quando os créditos começaram a sensação que tive era de uma história que levava de nada à lugar nenhum, pois apesar de ter havido um amadurecimento das personagens nada mudou (só a esposa do De Niro que enfim largou o marido). Esse "final seco" que você elogiou pra mim foi a pior parte do filme.
Não sou Cinéfila, mas gosto muito de cinema. Pra mim, por mais cabeça que seja o filme, tem que me propor entretenimento e agregar algo de valor. Esse filme não tinha nada disso.

Tiago Lipka disse...

(comentário com spoilers)

Mariana, como comentei ao escrever sobre o filme, acredito que Homens em Fúria seja uma ironia baseada na jornada tradicional de personagens que rege a dramaturgia desde o tempo dos gregos.

O que o final de Homens em Fúria representa é a vida vazia do personagem de Robert DeNiro. Ele parece buscar uma espécie de recompensa pela integridade de seu trabalho, e de início acredita que o relacionamento com a mulher de Stone traz isso.

É claro que depois, ao perceber que foi usado, ele parece buscar essa recompensa de maneira forçada, seja dando em cima da companheira de trabalho descaradamente ou confrontando Stone, mesmo sabendo que sua mulher queimou sua casa.

O que se contrapõe a jornada de Stone que, personagem com claro fascínio pela violência, busca uma redenção que acaba o afastando de sua esposa.

Tudo isso, deve ser somado as referências do filme sobre a religião, que prega recompensas para quem teve uma vida boa, ou o castigo para o contrário. Se Jack contantemente verbaliza sua frustração, é fascinante que Stone encontre a paz em uma religião em que a prioridade é escutar, e não falar.

Claro que, como disse, entendo perfeitamente a frustração que pode surgir do final seco do filme.

Mas a imagem triste e atônita do personagem de Robert DeNiro esvaziando sua sala ao final é uma das imagens mais tristes que vi no cinema esse ano.

Abraço!

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