Faça a Coisa Certa


Junto com Veludo Azul e Touro Indomável, Faça a Coisa Certa é um dos grandes filmes americanos dos anos 80. Em seu terceiro longa-metragem, Spike Lee criou um filme corajoso, que ainda hoje, mantém seu forte impacto ao lidar com o preconceito racial vindo das próprias minorias étnicas. A obra fez polêmica, e ainda gera debates, ao retratar o racismo vindo da própria comunidade negra.

Faça a Coisa Certa conta a história de um dia numa rua em Nova York. Neste dia, com calor recorde faz com que o stress e a tensão entre os moradores entre em verdadeira ebulição. Por mais que o filme comece relativamente leve, a sensação de que algo terrível poderá acontecer está presente a todo momento, graças a conflitos pequenos, mas repletos de ódio e adversidade.

O centro de todo o conflito é a tentativa de boicote de um morador de que Sal, o dono da pizzaria interpretado por Danny Aiello, coloque fotos de alguns negros em sua parede, repleta de fotos de artistas como Al Pacino, Robert DeNiro e outros. Um confilto pequeno que ganha proporções inacreditáveis num dos terceiros atos mais poderosos que o cinema já produziu.

O elenco inteiro não merece apenas elogios pelo talento em suas performances, mas pela coragem: se Danny Aiello cria uma figura carismática, mas que deixa escapar algum preconceito em alguns momentos, John Turturro cria um personagem repulsivo, mas complexo, ao deixar absolutamente claro seu racismo, mesmo que conheça (e admire) a cultura negra. E se Ossie Davis acerta perfeitamente no tom de sua atuação como o Prefeito (quase "a voz da razão" do local), Giancarlo Esposito merece elogios pela maneira insana (e acertada) que demonstra seu ativismo.

Spike Lee surge como uma voz poderosa no cinema norte-americano, criando uma obra-prima de forte personalidade. O visual do filme é um show a parte: o Brooklin de Faça a Coisa Certa não parece em nada com o que estamos acostumados, mais parecendo uma versão surreal do local, algo que funciona perfeitamente na lógica do filme. Além disso, o diretor já demonstrava um talento natural para os enquadramentos, e as cenas em que os atores falam diretamente para a câmera (e ainda acho que Spike Lee é o único que consegue fazer cenas assim parecerem naturais).

Contando com um final que, certamente, divide (e dividirá) opiniões, Faça a Coisa Certa é um filme poderosíssimo e de forte personalidade. A maneira como Spike Lee encerra a obra pode ser vista como maniqueísta, mas me parece um complemento mais do que natural ao que vimos até então, e mais: é um desfecho extremamente corajoso ao se preocupar mais em fechar a lógica da trama do que em agradar o público.

E a coragem de Spike Lee de escrever e dirigir esta obra-prima se torna ainda mais admirável se notarmos que ele interpreta o personagem que realiza a ação mais controversa no final do filme, o que demonstra a segurança e confiança que Lee tinha na obra.

NOTA: 10

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