O Escritor Fantasma


Coincidência curiosa que dois dos melhores suspenses do ano tenham tantas características em comum: estou falando de Ilha do Medo e este O Escritor Fantasma. Ambos possuem mestres na direção: em um Martin Scorsese, e neste, Roman Polanski. Ambos começaam com a chegada de um navio a uma ilha; ambos, se passam numa ilha (doh') em que o clima é nublado e nada convidativo. E o principal: ambos são suspenses fascinantes, e atingem novos níveis de perfeição, dentro de carreiras já invejáveis. 

Ewan McGregor interpreta o escritor fantasma escolhido para realizar as memórias do ex-primeiro ministro da Inglaterra, Adam Lang (Pierce Brosnan). Aceitando o emprego pela ótima remuneração, ele acaba indo, mesmo sabendo o escritor fantasma anterior, um amigo de tempos de Lang, foi encontrado morto em circunstâncias bastante suspeitas. 

Dirigindo o filme com seu talento unico e peculiar, Polanski faz de O Escritor Fantasma uma experiência repleta de tensão, e assim como Spielberg em Munique, em alguns momentos nem sequer explica o que de fato ocorreu (nos deixando na mesma situacção que o protagonista). Além disso, a cenografia do escritório onde o escritor trabalha é brilhante, mantendo-o de costas para uma vista aberta para o mar (e portanto, é perfeito que no primeiro momento de tensão no lugar, Polanski dê destaque a uma enorme proteção que bloqueia a vista). Outra antiga característica do diretor, que é a sensação claustrofóbica que seus filmes passam, volta a aparecer de forma curiosa: mesmo quando os personagens estão em locais abertos, o diretor favorece algum detalhe que os "aprisiona", como ao mostrar dois personagens que andam pela praia acompanhados pelo segurança, ou a forte tempestade que atinge a ilha em um determinado momento. 

Ewan McGregor mostra pela segunda vez no ano (ver O Golpista do Ano) sua evolução como ator, fazendo um trabalho sutil e complexo, comparável a outra grande atuação num filme de Polanski: Jack Nicholson em Chinatown. Pierce Brosnan, um bom ator que infelizmente às vezes prefere trabalhar no piloto automático, também realiza um belíssimo contraponto a McGregor, repleto de fúria e uma curiosa tristeza em meio a um ego enorme, e Olivia Williams como sua esposa também se mostra surpreendente. O filme ainda se beneficia de pontas bem realizadas (outra semelhanca com Ilha do Medo), como as de James Belushi, Tom Wilkinson e Eli Wallach

Contando com um ato final inteligente e trabalhado de maneira brilhante pelo diretor (o plano-sequência que mostra um bilhete passando por varias mãos é genial), O Escritor Fantasma pode desagradar pelo pessimismo que a cena final passa, mas é impossivel ignorar que fomos muito bem manipulados por um mestre do cinema por duas horas. 

NOTA: 10

PS: E pensar que Tony Blair, antes tratado como um espertalhão cheio de boas intenções em A Rainha por Michael Sheen virou este político cheio de mágoa e tragédia por Pierce Brosnan... tsc, tsc...

3 comentários:

Daniela Gomes disse...

Saí do cinema com o mesmo pensamento inicial de seu texto: os dois super bem elaborados suspenses, com pontos que os aproximam.
A diferença é que Polanski era uma novidade para mim. O primeiro filme visto por mim, deste tão bem falado cineasta. Um ótima experiência. Impossível não se desligar de tudo durante a duração do filme. Um ótimo convite para conhecer suas outras obras.
Um abraço.

Marconi disse...

quero muito ver...
http://cinespaco.blogspot.com/

annastesia disse...

X-cellent! Polanski voltou com a corda toda! Ewan está ótimo!

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