Adoração


Quem frequenta o blog já deve ter visto que sou um grande fã do diretor Atom Egoyan, como deixei claro em meus textos sobre Exótica, O Doce Amanhã e A Verdade Nua. E não há nenhuma sensação melhor para um cinéfilo do que ser surpreendido por aqueles que já admiramos: Adoração é a obra-prima de Atom Egoyan, um filme que atinge um novo nível de perfeição em sua carreira.

Como é de costume para o diretor, Adoração conta sua história de maneira não-linear, mas sempre evitando confundir o espectador, aliás, pelo contrário: a sensação é a de que a cada cena que passa, nos aprofundamos cada vez mais na trama relativamente simples, mas extremamente complexa em seus significados e suas implicações.

O filme nos apresenta a Simon, um rapaz que escreve e lê para a sua turma um texto dizendo que seu pai foi um terrorista, e teria plantado uma bomba na bagagem de sua mãe, quando ela viajava para Israel. Aos poucos, porém, o diretor vai mostrando uma verdade muito mais complexa sobre isso, enquanto acompanhamos o relacionamento de Simon com seu tio, sua professora e seu avô.

Inicialmente, Adoração mostra como através das novas tecnologias, principalmente as mídias sociais, é perfeitamente possível que uma pessoa não apenas altere completamente seu passado, mas sua própria personalidade, mas não sem mostrar que isso influenciará todos a seu redor: assim que o adolescente começa a tentar humanizar a figura de seu pai e sua suposta tentativa do atentado, "sobreviventes" daquele vôo começam a surgir de maneira agressiva (incluindo um que se afirma como "a voz dos mortos").

Porém, ainda mais curioso é perceber que de uma discussão tão ampla, o filme aos poucos se revele muito mais intimista. À Atom Egoyan, não interessa se o drama de Simon é real ou fictício: ele é um adolescente que cresceu sem os pais, e tentará preencher esse vazio de qualquer maneira (e nesse sentido, o último plano do filme é fascinante), e o jovem Devon Bostick faz um trabalho brilhante ao interpretá-lo. Arsinée Khanjian com uma interpretação incrivelmente contida como a professora Sabine, parece preferir que o roteiro mostre seu drama, uma decisão inteligentíssima.

Mas quem merece o total destaque no elenco é Scott Speedman, um ator que vinha de filmes e personagens fracos (com exceção do ótimo Minha Vida Sem Mim), mas que aqui dá a performance de uma carreira: inicialmente visto apenas como um homem em crise, mas capaz de qualquer coisa para cuidar de Simon, aos poucos percebemos que a sua trajetória é tão importante para o filme quanto a de Simon, e o flashback que o mostra numa discussão de família é uma das cenas mais brilhantes e emocionantes que vi nos últimos anos.

Infelizmente, assim como seus filmes anteriores, Adoração foi pouco visto e pouco lembrado nas premiações, o que nesse caso é uma injustiça terrível. Poucos filmes são tão relevantes e importantes quanto este, que mostra genialidade até no enquadramento que mostra o título. Faltam adjetivos para elogiar um filme assim: Obra-prima é pouco.

NOTA: 10

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