Ilha do Medo



Ilha do Medo
não é só mais um lembrete de que Martin Scorsese é o melhor diretor da geração dos anos 70 que ainda está entre nós, mas também traz aquele Scorsese maroto e fanfarrão que adorava brincar de cinema de gênero, e criou filmes excelentes como Cabo do Medo, Alice Não Mora Mais Aqui ou A Última Tentação de Cristo, três filmes excelentes mas que fogem completamente do estilo pelo qual o diretor é lembrado.

Neste filme baseado no livro Paciente 67 de Dennis Lehane (cujo currículo está ficando invejável - vide Sobre Meninos e Lobos e Medo da Verdade), acompanhamos a investigação de dois agentes federais na ilha Shutter, onde uma paciente desapareceu misteriosamente. Aos poucos, porém, os agentes percebem algo de estranho no lugar, enquanto um deles, Teddy é vítima de estranhos pesadelos e alucinações envolvendo sua participação na tomada de um campo de concentração e a morte trágica de sua mulher.

Como se não bastasse o material rico em mãos, Scorsese faz questão de transformar Ilha do Medo numa experiência incômoda e perturbadora. Perceba como ele utiliza a forte trilha sonora para transformar a chegada dos agentes na ilha num crescendo arrebatador. Além disso, assim como mostrou no excelente O Aviador, o diretor utiliza os efeitos especiais com inteligência, criando cenas tensas e fantásticas, como o pesadelo de Teddy em que sua mulher queima em seus braços, ou a tempestade que começa a derrubar as árvores no lugar.

Em mais uma bem-sucedida colaboração com o mestre do cinema, Leonardo DiCaprio entrega a melhor atuação de toda a sua carreira, criando um personagem trágico, e impressionando principalmente no final. E se Mark Ruffalo atua com a competência habitual, sem dificuldades para tornar seu personagem carismático, Ben Kingsley e Max Von Sydow brincam de forma assustadora com a percepção do espectador, jamais nos deixando saber se escondem uma natureza monstruosa ou o contrário.

Montado com a competência habitual de Thelma Schoonmaker, Ilha do Medo é um filme perturbador que jamais deixa de ser intrigante, e assim como ocorre nas outras adaptações de Dennis Lehane, a trama surpreende por jamais se enrolar e apresentar com inteligência singular a sua história. A diferença é que aqui, saiu uma obra-prima de um mestre que poderia muito bem não ter se arriscado tanto depois de ter ganho seu merecido Oscar. Ele decidiu se arriscar, e nós só podemos agradecer.


NOTA: 10

4 comentários:

Quéroul disse...

ah, que sequência de postagens! tô doida pra ver Ilha do Medo e o Baader Meinhof!
eu li todo seu blog outro dia... cheguei aqui pelo filmow (um comentário seu em 'Half Nelson') e vim aqui ler tudo.
essas duas postagens recentes ainda
não li porque tenho 'medinho' de spoiler, mas resolvi deixar um comentário agora só pra dizer que eu gosto muito dos seus textos.
:)

oi!

Tiago Lipka disse...

Bom Quéroul, que bom que você gostou! Apareça e comente sempre que puder, e pode ficar tranquila: Falo de tudo nos filmes, mas nunca faço spoilers.

Obrigado e nos falamos o/

NR disse...

Sinceramente já tive minha fase de fixação por filmes de terror ou gêneros mais similares.. passou. Quem sabe talvez um dia assista esse só por curiosidade, mas não pela paixão que tinha antigamente.

Who? disse...

Garanti minha noite de passeio ao cinema, com minha mulher, assistindo esse filme que comporta diversos adjetivos inteligentes.

Excelente obra de arte!

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