Vício Frenético (2009)


Refilmagem do filme homônimo de 1992 (que ainda não vi), Vício Frenético é um policial que consegue se destacar de qualquer filme do gênero. Em seu segundo filme americano (o outro foi O Sobrevivente), Werner Herzog faz um trabalho mais "comercial", mas que segue perfeitamente a lógica de seus trabalhos. Vício Frenético utiliza o caos gerado pelo furacão Katrina como pano de fundo para a decadência moral e física do Bad Lieutenant do título.

Ator com forte tendência ao over-acting, mas de atuações invejáveis (vide Despedida em Las Vegas, Adaptação, O Senhor das Armas ou O Sol de Cada Manhã, por exemplo), Nicolas Cage faz aqui uma das grandes atuações de sua carreira. Com um olhar perdido e uma postura fisicamente incômoda em cena, o ator faz um trabalho perfeito ao utilizar sua postura corporal como símbolo da degradação moral de seu personagem, e sua ausência no Oscar de melhor ator é uma das grandes injustiças do ano. Além disso, Val Kilmer e Brad Dourif interpretam de maneira tão fascinante que é difícil entender como eles não foram sequer lembrados para o Oscar de ator coadjuvante.

O roteiro erra um pouco no excesso de situações secundárias, mas é impossível não admirar a belíssima construção das cenas: da cena de abertura que mostra o "corajoso" ato de resgate de um prisioneiro, até as cenas de abuso sexual e tortura de uma idosa que soam engraçadas (acredite!), o roteiro ainda acaba surpreendendo pela inteligência ao demonstrar o curioso e eficiente modus-operandi do protagonista.

Herzog dirige com a competência habitual, e sua parceria com Nicolas Cage é de um acerto tão grande, que mal posso esperar para que eles repitam a dose. Basta reparar em como o diretor jamais perde o personagem em cena, mesmo que utiliza reflexos para isso. Contando com um final absurdo e irônico, que certamente parece um "final feliz", Vício Frenético mostra que mesmo um filme comercial pode ter as marcas de gênio de seu autor. O tenente é um agente do caos, senão o próprio caos em cena. E se há um diretor que consiga mostrar esse caos, esse diretor é Werner Herzog.

NOTA: 9

3 comentários:

Livia disse...

Nicolas Cage sabe atuar, é claro ("Senhor das armas" é um dos meus filmes favoritos) mas algo me diz que ele encadeou uma sequência de filmes tão ruins ("Motoqueiro fantasma", "O Vidente", o remake de "O Sacrifício") que quis provar que ainda pode ser um bom ator.
E quis provar um pouquinho demais. Para mim, ele errou na mão e precisava dar uma boa diminuida na dose.

No geral, gostei do filme. Embora ainda não tenha engolido aquela coisa toda do dna do cachimbo. não deveria aparecer no exame o dna do nicolas cage tb?

Daniela Gomes disse...

Olá Tiago, tenho você como amigo no filmow e hoje foi a primeira vez que visitei o seu blog. Lamento não ter vindo antes, belos textos. Mesmo não concordando com este em questão; Parabéns!
Agora, por que eu não concordo? Não conheço outros filmes do Werzog, mas todos conhecem a sua fama. Seu ecletismo beirou o ridículo neste filme. Cenas desconexas e exageradas predominaram. Nicolas Cage só se encaixou perfeitamente no papel porque, assim como o filme, ele é puro "caos" em matéria de atuação. Pelos filmes/exemplos de boa atuação do Cage, dizer que essa foi sua melhor "atuação" é desmerecê-lo.

Mais uma vez: Parabéns pelo blog!

Tiago Lipka disse...

Os filmes do Herzog são assim: nunca vão agradar a todos. Para quem quer conhecer e entender o cinema dele, eu recomendo dois filmes recentes: O Sobrevivente e o documentário O Homem-Urso. Vício Frenético me agradou pela forma como a narrativa parece emular muito da personalidade do personagem.

Mas obrigado pelos comentários e voltem sempre. =)

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