Nine


Nine já nasceu como um fracasso artístico certo, afinal trata-se de uma refilmagem do mais do que clássico Fellini Oito e Meio, considerado por muitos (inclusive eu) o grande filme do diretor italiano. Embora o filme na verdade se baseie numa peça de teatro que era uma adaptação do filme, ou seja: uma adaptação de uma adaptação: era óbvio que muito se perderia, e de fato isso aconteceu, mas para meu espanto, o diretor Rob Marshall conseguiu fazer um filme que, embora não faça justiça ao original, tem vários méritos e, o mais incrível, conseguiu ser um bom filme musical.

O filme gira em torno de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), um diretor que está prestes a começar as filmagens de seu novo filme, mas não tem um roteiro. Atores já estão contratados, a equipe técnica já está trabalhando, mas o diretor não consegue pensar em nada. Em meio a essa crise, sua amante (Penélope Cruz) aparece no refúgio de Guido, ao mesmo tempo em que sua esposa (Marion Cotillard) também dá as caras.

Fellini Oito e Meio é um filme espetacular pois os conflitos de seu personagem eram complexos, e nenhum deles de fácil solução: da culpa católica até a infinita vaidade do personagem, não éramos apenas obrigados a testemunhar seu sofrimento, como a compartilhar suas fantasias. Em Nine, pouco disso funciona: a religiosidade é um mero detalhe, que aparece apenas como uma piadinha visual nada inspirada. O que o filme consegue fazer de maneira interessante é o relacionamento de Guido com sua esposa.

Daniel Day-Lewis está brilhante como sempre, e se mostra uma escolha de elenco inspiradíssima (afinal, quem mais poderia assumir o personagem de Marcello Mastroianni?), mas a grande atuação do filme é a de Marion Cotillard que não tem apenas os melhores números musicais, como também consegue fazer de sua personagem a mais trágica da história. Penélope Cruz e Kate Hudson estão deliciosas (principalmente a segunda), mas não consigo entender a indicação de Cruz a melhor atriz coadjuvante, já que Judi Dench tem um desempenho muito mais bem sucedido. E Nicole Kidman também está muito bem, algo que até me surpreendeu, enquanto Fergie tem não apenas a pior personagem do filme, como o número musical mais fraquinho.

Rob Marshall faz o seu melhor trabalho na direção até aqui, algo não muito difícil para quem dirigiu os regulares Chicago e Memórias de uma Gueixa, mas o diretor cria números musicais bacanas, e surpreende pelo uso de diferentes bitolas e raccords curiosos. Embora o filme soe um pouco esquemático (história, música, história, música, música, história, música...), tem um bom ritmo e consegue prender a atenção. 

Não é uma grande obra de arte, e não serve sequer como uma homenagem a Federico Fellini (por mais que acabe citando até A Doce Vida em um momento) mas é um bom musical, algo cada vez mais raro.

NOTA: 7

1 comentários:

Tiago Ramos disse...

Nine não deixa de ser um filme agradável, com um grande sentido de entretenimento. É divertido e razoável, um excelente caso de amor ou ódio e uma fotografia primorosa da autoria de Dion Beebe (Chicago) Não deixa contudo de ser uma respeitosa homenagem aos filmes italianos de 60 e 70 e especialmente a 8½ de Federico Fellini na sequência de créditos final. Contudo, não deixamos de sentir um ligeiro desagrado e a certeza que Rob Marshall podia ter feito melhor.

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