A Fita Branca


Obra-prima do diretor Michael Haneke, A Fita Branca foi interpretado por muitos críticos como uma alegoria sobre a geração que permitiu que Adolf Hitler chegasse ao poder na Alemanha, já que o filme conta a história de vários incidentes antes da Primeira Guerra Mundial, onde os principais suspeitos são as crianças do vilarejo. Não é uma interpretação errada, mas é incompleta. A Fita Branca é um estudo quase antropológico daquele lugar, e assim como Lars Von Trier fez em Dogville, Haneke aos poucos vai mostrando a miséria humana do lugar.

Vale comentar que o filme é muito mais linear e "fácil" do que os outros do diretor, mas ainda assim é um filme para se assistir com atenção. Haneke dirige o filme com inteligência, sabe o que mostrar, e principalmente, o que não mostrar: se as suspeitas dos incidentes caem sobre as crianças, isso se deve ao poder de sugestão do diretor, ao mostrar rapidamente uma criança pulando um muro após um filho achar seu pai enforcado, por exemplo. Mas é curioso notar como aos poucos, para o diretor pouco importa quem cometeu os crimes: na verdade, ele se mostra mais interessado nas relações entre famílias e entre as castas do local.

Observem por exemplo como o único delito que aparece no filme e que é cometido por crianças: o filho do coronel da região toca sua flauta, enquanto dois pobres filhos de um fazendeiro tentam fazer suas flautas com madeira e faca. O som da flauta do filho do coronel não irrita os garotos só porque ele consegue tocá-la: é também um lembrete triste da condição miserável de suas famílias e do poder do coronel. 

E a tal da fita branca que dá título ao filme é utilizada por um pastor para amarrar nos braços de seus filhos, para representar sua pureza e inocência. O que Haneke parece dizer, de forma cruel e brilhante, é que a inocência, por si, não significa bondade. E a inocência do filho do pastor ao dar uma chance para Deus matá-lo logo no início do filme é uma amostra perfeita disso.

Como vocês podem ver, A Fita Branca é um filme que desperta uma profunda reflexão e que em suas duas horas de duração parecem discutir uma infinidade de assuntos relevantes e importantes. Recentemente, Michael Haneke disse que os alemães devem assistir A Fita Branca como um filme sobre seu país, e o resto do mundo deve assistir como um filme sobre seu respectivo país. E o Brasil é um país que precisa urgentemente acordar para a reflexão desta obra-prima absoluta.

NOTA: 10

2 comentários:

Jack Lewis disse...

10? Vou ir amanhã ver!

Anônimo disse...

O que um bom post. Eu realmente gosto de ler esses tipos ou artigos. Eu não posso esperar para ver o que os outros têm a dizer.

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