Sexo, Mentiras e Videotape



O filme é considerado um marco na história do cinema independente americano, e deve ser mesmo. Basta assistir a Sexo, Mentiras e Videotape e pensar na dificuldade que ainda existe em se discutir abertamente a sexualidade na nossa sociedade atual e pensar como era isso a vinte anos atrás para reconhecer não apenas a qualidade do roteiro, como sua coragem em abordar temas polêmicos com naturalidade e inteligência.

Primeiro longa-metragem do talentoso Seteven Soderbergh, o filme conta a história de Ann, uma dona de casa cuja depressão a levou a perder o desejo sexual. Seu marido, John, acaba com isso tendo um caso com sua irmã mais nova, Cynthia, algo que ela desconfia. Mas seu problema é com o convite que John faz para um velho colega de faculdade, Graham, que depois de nove anos sem rever o amigo, acaba percebendo que nada mais tem em comum com ele, mas logo inicia uma grande amizade com Ann, e acabam se tornando confidentes. O detalhe é que Graham é impotente, e a única maneira de obter prazer sexual é através de fitas em que ele grava mulheres falando sobre sexo, algo que choca Ann principalmente, mas atrai logo sua irmã.

Andie McDowell interpreta Ann com delicadeza, tornando-a uma personagem adorável, mas que logo depois da metade parece se converter numa figura fechada e ambígua, numa mudança sutil bem construída pela atriz, enquanto Peter Gallagher e Laura San Giacomo atuam bem em seus papéis de "vilões" da história inicialmente, mas logo ganham grandes dimensões dramáticas graças ao roteiro. Mas o grande destaque mesmo é James Spader que numa de suas grandes atuações de sua carreira (competindo com Crash - Estranhos Prazeres e Secretária) consegue criar um personagem extraordinário, e que poderia facilmente ser visto como um simples esquisitão por um outro ator. Pelo contrário, aliás: Spader adota um tom de voz calmo e suave e utiliza um olhar bondoso e sereno que contrasta fortemente com seus estranhos impulsos sexuais. Mas suas melhores cenas são quando o filme o mostra entrevistando garotas para suas fitas de vídeo: nesses momentos, observem que o ator muda sua voz e até mesmo sua postura, como se criasse um personagem assim que apertasse o botão de gravar da câmera.

Inteligente, sensual e divertidíssimo, Sexo, Mentiras e Videotape é um verdadeiro tesouro do cinema americano e que pode parecer datado para a geração que nasceu com a Internet e não sabe o que era falar de sexo quando não havia os meios fáceis que existem hoje em dia. Mesmo assim, merece ser conferido pela direção de Soderbergh, que já mostrava ali ter um talento extraordinário e, principalmente, pelas atuações brilhantes de seu elenco.

NOTA: 10

1 comentários:

Hneto disse...

"Sexo, Mentiras e Videotape" é um grande - que sempre merece ser (re)visto. Saudações!

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