Valsa com Bashir



Valsa com Bashir merece ser estudado. O filme é uma mistura de documentário com animação, algo que já merece enorme respeito: qualquer um que tenha estudado comunicação, fotografia, cinema, etc. se deparou com a questão da "realidade". De como nem mesmo uma fotografia escapa de estar manipulando a realidade apresentada diante da câmera, ou ainda, de como o fato de haver uma câmera naquela realidade, já está a alterando de certa forma, mas divago. O fato é que através do recurso da animação, o diretor Ari Folman conseguiu criar um filme memorável em todos os seus aspectos.

Ari Folman lutou na Guerra do Líbano, mas depois de conversar com um amigo que também esteve lá, percebe que não tem nenhuma lembrança da guerra, e pior ainda, não se lembra de um terrível massacre contra os palestinos, mesmo sabendo que esteve lá. Decidido a relembrar este fato de seu passado, ele vai atrás de outros companheiros que estiveram na batalha para retomar sua memória, mas o diretor vai além: percebendo que seus amigos também não tem recordações exatas do que aconteceu (e o filme explica isso de maneira brilhante logo no início), o filme dá voz aos sonhos e alucinações para montar o quebra-cabeças. Logo, nos vemos dentro da alucinação de um soldado assustado que imagina uma mulher gigante a confortá-lo ou o recorrente sonho na praia com cidade destruída.

E a animação do filme merece vários elogios. Se pelo trailer eu só podia imaginar que foi utilizada a técnica de rotoscopia (vide Waking Life ou O Homem-Duplo), Valsa com Bashir na verdade teve toda a tecnologia criada exclusivamente para o filme, tornando-o uma experiência visual única: se os desenhos parecem simples, os "movimentos de câmera" merecem elogios, principalmente nas longas cenas sem cortes. Mas o aspecto técnico de Valsa com Bashir chega a ser um mero detalhe: apresentando um mea culpa poderoso, trata-se também de um filme político forte e emocionante, mas não deixando de ser um estudo de personagem humano e incrivelmente sensível.

Terminando com cenas que funcionam como um verdadeiro soco no estômago (e que mais uma vez, justificam o uso de animação), Valsa com Bashir é um filme importantíssimo e deve ser conferido e discutido por anos e anos. E num mundo ideal, deveria ser exibido junto com outras obras-primas como Munique e Paradise Now.

NOTA: 10

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