A Estrada Perdida



A Estrada Perdida é o único longa-metragem de David Lynch que não está disponível em DVD no Brasil, ou seja, quem não tiver a paciência de buscar em VHS (como eu já perdi) tem que baixar. E é um download muito recomendado. O filme é um dos mais experimentais do cineasta, um pouco mais que Eraserhead, mas nem tanto quanto Império dos Sonhos: na verdade, A Estrada Perdida não apenas lembra (e parece uma preparação do cineasta para) Cidade dos Sonhos, como também se complementa de maneira perfeita com esta obra.

É curioso observar por exemplo, que ambos os filmes lidam com a busca de personagens pelas suas identidades (enquanto trocam de nomes e até de corpos, nesse filme), mas se a protagonista de Cidade dos Sonhos era uma mulher sensível, que se via cercada pela culpa, aqui o protagonista é um homem possessivo e ciumento, que cercado pela culpa, entra num perigoso labirinto psicótico. E a diferença do sexo dos protagonistas em ambos os filmes é algo importante para a compreensão das duas obras: se Lynch encheu Cidade dos Sonhos com uma trilha sonora doce, evocativa e até inocente, aqui somos bombardeados pela trilha que inclui David Bowie, Nine Inch Nails, Rammstein e Marilyn Manson.

Escrito por Lynch em parceria com Barry Gifford (que escreveu o romance que originou um dos piores filmes do cineasta, Coração Selvagem), o filme é cercado por todos os lados de referências freudianas, e tão cercado que falta calor humano: uma das grandes sacadas do roteiro é cercar o protagonista por seus pais, que se desabam em lágrimas ao não revelarem o grande segredo da história, uma das raras cenas que despertam o lado emocional do espectador.

Por outro lado, isso pode ser muito bem compensado pela atmosfera de terror que o filme possui, algo que só posso comparar a sensação tenebrosa de assistir Império dos Sonhos: Lynch brinca com a câmera como nunca mais fez depois. Além de criar uma das mortes mais bizarras da história do cinema (só digo que envolve uma testa), o diretor brinca com a fotografia contrastada e os eixos de câmera para realizar o sádico jogo da narrativa.

A Estrada Perdida pode não ser o melhor filme de David Lynch, mas não dá pra dizer que é um filme descartável: muito pelo contrário, é mais um de seus filmes que funcionam independente da interpretação e até da compreensão do espectador perante a obra. Mesmo que alguém não entenda porra nenhuma, eu duvido que irá tirar os olhos da tela.


NOTA: 9

PS: E cinéfilos do Brasil: BAIXEM esse filme, afinal, passou da hora das distribuidoras nacionais tomarem vergonha na cara...

2 comentários:

Ulisses Benevides disse...

Esse filme é sensacional mesmo! Com certeza é um dos melhores do David Lynch. Ontem encontrei o DVD na livraria Cultura, um lançamento da Versátil.

Adri disse...

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