Valente

 

Enquanto Valente passava, em vários momentos me lembrei de Marcas da Violência e Taxi Driver, o que pode ser o melhor elogio que posso fazer a obra, mas não pára por aí. Conseguindo se destacar em um gênero que, na falta de melhores palavras, já encheu o saco (filme de vingança), Valente apresenta idéias ousadas e um final a altua, que mesmo se resolvendo de forma simplista, com certeza vai deixar os moralistas com a pulga atrás da orelha.

Jodie Foster interpreta Erica Bain, uma radialista que é brutalmente espancada por uma gangue que mata seu namorado, Sayid de Lost. Depois de se recuperar em casa, Erica enfrenta o medo de sair de casa e acaba virando o que Charles Bronson foi em Desejo de Matar. E essa comparação certamente é a que mais me irrita: há algo de curioso em uma mulher se tornar uma sociopata, e a série Desejo de Matar com certeza não aborda metade das complexas questões apresentadas em Valente. Sim, Tarantino fez isso em Kill Bill também, mas como sabemos, Tarantino não tem absolutamente nada a dizer, ao contrário de Neil Jordan, um cineasta incapaz de realizar uma obra sem várias idéias e que cria várias cenas impactantes, como de costume (o assassinato com o pé-de-cabra me vêm a mente).

É curioso como logo depois de começar a matar, a personagem de Erica não sinta qualquer arrependimento: aliás, ela reage de forma absolutamente interessante, e o diálogo que ela tem com uma vizinha logo após um homícidio mostra a estranha paz de espírito que a personagem encontra em sua sanguinária vingança, e seria injustiça não comentar sobre a extraordinária atuação de Jodie Foster em uma de suas melhores atuações.

Infelizmente, o roteiro aborda questões como essa sem fundamentar muitas coisas: por exemplo, porque Erica resolve comprar uma arma? Sim, o seu pânico de sair de casa e sua raiva diante da indiferença da polícia são sentidos pela platéia, mas nada justifica o fato de ela sair comprar uma arma logo em seguida. E o que dizer da ligação forçada que o roteiro estabelece entre ela e o policial Mercer (interpretado pelo sempre competente Terrence Howard)? Por mais que a ligação entre os personagens crie cenas marcantes (como o ótimo diálogo filmado num longo plano-sequência), é fato que essa ligação é artificial, e quanto mais revelações surgem entre os dois, mais essa artificialidade se revela.

Contando ainda com o já mencionado final ousado, Valente é um filme de muitas idéias, algo recorrente na filmografia de Neil Jordan, mas é também um filme de estúdio que tem de ser entretenimento acima de tudo, algo no qual é bem-sucedido, já que a montagem garante um bom ritmo, mesmo que o filme seja um pouco longo, e com um roteiro um pouco melhor, poderia ser mais uma obra-prima deste grande diretor.


NOTA: 8

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