Sinédoque, Nova York



Em sua estréia na direção, Charlie Kaufman se mostra um diretor muito mais certinho do que eu imaginava. Não que Sinédoque, Nova York seja um filme simples, muito pelo contrário: é o filme mais complexo já escrito por Kaufman; mas a curiosa simplicidade visual que ele emprega nos planos acaba escondendo um apuro visual magnífico. Se excelentes diretores como Spike Jonze, Michel Gondry e George Clooney aproveitaram das birutices complexas do roteirista para criarem filmes visualmente inusitados, Kaufman usa de um visual aparentemente simples para fazer seu filme mais complexo e instigante.

Há algo de cinema de terror em Sinédoque, Nova York: o filme gira em torno de uma peça jamais terminada com o intuito de lembrar o público de nossa mortalidade por um diretor cuja existência se resume a si próprio, através de doenças que ele jamais sabe se tem, e a constante sensação de já estar morto de alguma forma.

O filme demora a prender o espectador, e confesso que depois de uma hora de filme, por mais que estivesse admirando as idéias espalhadas pelo diretor, eu estava muito frustrado com o ritmo lento e a montagem aparentemente sem foco: baita engano. Depois que Kaufman começa a lentamente juntar as peças do quebra-cabeças, o filme se torna fascinante. O que parecia besta e gratuito, ganha ar de grandeza. Coisa de gênio mesmo.

A casa que pega fogo e nenhum personagem nota, os corredores de hospitais amarelos, os quadros minúsculos que só podem ser admirados com lentes de aumento, aparecem como simbolismos fascinantes cujo significado simples e tocante engrandece o filme, e principalmente pela maneira curiosamente simples em que são apresentados (e novamente: se deve pela simplicidade da direção de Kaufman).

Uma referência óbvia que o filme traz consigo é a da obra-prima de Federico Fellini, Oito e Meio: ambos tratam de criações artísticas frustradas em meio a um personagem que se vê cercado por todas as mulheres de sua vida. Kaufman disse que não assistiu e não se baseou na obra de Fellini, mas deveria, já que em alguns momentos ele cria cenas que poderiam muito bem estar na obra do diretor italiano (como a maneira em que a psicóloga se posiciona ao lado de Caden Cotard no avião). Mesmo assim, é injusto sequer comparar as duas obras já que mesmo tratando de assuntos semelhantes, os dois filmes são únicos e donos de fortes marcas de seus autores.

E por falar em Caden Cotard, o protagonista do filme e (mais um) alter-ego de Kaufman é interpretado de maneira brilhante por Phillip Seymour Hoffman, um dos melhores atores do momento. Sua atuação sensível e despida de maneirismos (como as feitas por Nicolas Cage e John Cusack em papéis semelhantes) cai como uma luva para o filme.

Pessimista e intrincado, Sinédoque, Nova York provavelmente não vai agradar muita gente, mas é uma obra fascinante sobre um tema sempre discutido por estudantes de comunicação: a constante transformação da realidade para as mídias: como mesmo uma fotografia não consegue escapar da manipulação do fotógrafo perante o objeto fotografado, e portanto não seja uma amostra da realidade. Com um final apoteótico e uma dos diálogos finais mais emocionantes que pude testemunhar, é um desses filmes inesquecíveis que duram para sempre, e que não apenas merecem, mas DEVEM ser assistidas muito mais do que uma vez.

NOTA: 10

3 comentários:

O Cara da Locadora disse...

Eu to precisando ainda ver outras vezes para digerir... To mandando todo mundo ver para poder discutí-lo...

Abraços...

Tiago Lipka disse...

Eu assisti duas vezes e sinto que entendi muito menos do que devia... talvez tenha sido essa a idéia, não sei. Mas também pretendo assistir muito mais vezes.

Abraço o/

Allan disse...

Típico filme que posso assistir 10 vezes que vou continuar sem entender a mensagem que o diretor quis passar, mas mesmo assim parece grandioso...
Abraço.

Real Time Web Analytics